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Celso Martins
Terminada a reunião de estudos doutrinários,
quando eu me preparava para sair do centro e regressar a meu lar, pois a noite
ia alta e morava distante, dependendo de ônibus demorado, eis que sou procurado
por um senhor de seus 40 anos de idade, pedindo-me um minutinho de minha
atenção.
Passei a ouvi-lo. Quis de mim saber se
aceito a possibilidade de vida em outros mundos. Em outros planetas. Em outras
galáxias. E porque eu lhe respondesse que sim, inclusive escudado em Kardec que
há mais de um século já defendia esta possibilidade, embora decerto outros
seres encontrando-se em outras dimensões, em formas talvez diversas das formas
terráqueas, com estruturas não necessariamente semelhantes às terrestres, aí o
companheiro me colocou nas mãos um punhado de papéis manuscritos pedindo mais:
- Então o senhor vai fazer o favor de levar
este material e ler em casa.
Estranhei: - Mas que tem que ver com isto a
sua pergunta que me foi feita, se admito a vida em outros pontos do imenso
Cosmos? arrisquei, já com alguma experiência no assunto: - são originais de um
livro sobre este tema e o companheiro deseja que eu organize e arrume um
editor?
- Não, replicou imediato. Não é isto, não! É
coisa mais sensacional ainda, professor. São lindíssimas mensagens que recebi
em casa, mediunicamente, de um Espírito que vive num planeta da estrela Sírius!
Fiquei pasmado sem entender mais nada.
Decerto estada eu a ouvir o canto de alguma sereia e não a pegar material...
mediúnico... de um Espírito...de um planeta... da estrela... Sírius? Ou seria
algum Espírito zombeteiro que teria se materializado, ali no centro, após a
minha palestra, só para testar a minha incredulidade de São Tomé?
- Mas meu amigo, eu não tenho tempo, ando
assoberbado, com muitas aulas nas escolas, artigos para jornais, textos de
livros nas editoras, a saúde meio baleada nos intestinos - tentei tirar o time
de campo.
Mas o homenzinho não perdeu a vaza,
insistindo:
- Não tenho pressa. Pode ficar com estes
papéis o tempo necessário. Tenho cópias. É para o senhor ler e meditar sobre as
verdades nelas contidas.
Este finalzinho de frase demonstrou que ele
não queda minha opinião. Não me fazia nenhuma pergunta. Já tinha a resposta na
ponta da língua.
Meio confuso, porque com pureza d'alma eu
não esperava aquela conversa, dele me despedi.
Em casa, corri os olhos sobre o amontoado de
papéis manuscritos e, prezados amigos, com todo o respeito que aquele senhor me
merece, nunca li tanta tolice junta! Tantas frases sem nexo algum!
Esperava encontrar pelo menos um mínimo de
coerência nas afirmativas, porém, só apareciam absurdidades!
E agora eu me ponho seriamente a pensar:
Como é que agem os Espíritos mistificadores! Como eles agem para fascinar
pobres médiuns que não têm o devido cuidado de estudar criteriosamente o que
ensinava Kardec nem querem ouvir a orientação despretensiosa e sensata de algum
companheiro com maior experiência na área mediúnica.
Não que haja em Espiritismo os professores,
os mestres, os doutores. Não é isso, não? Mas havemos de convir que existem os
prudentes, os cautelosos, os sensatos e os que se deixam empolgar,
entusiasmados com as mensagens que recebem e não nas passam pelo crivo da
razão, do bom-senso, da lógica, como sempre fez e preconizava o próprio
Codificador.
Até ali eu já havia conhecido médiuns que
receberam comunicações de Napoleão Bonaparte, de Inácio de Loyola, de Sto.
Tomás de Aquino, de Getúlio Vargas, de Juscelino Kubitschek, de Paulo de Tarso
e de Maria Santíssima ! Já vi livros até atribuídos a Jesus de Nazaré... Kardec
inclusive coloca no Livro dos Médiuns duas mensagens apócrifas, quer dizer,
falsas, onde o Espírito comunicante não se acanha em dizer-se Jesus. E Kardec
desmascara o farsante!
Até ali eu já havia lido estas mensagens
medíocres, ridículas, que prestam um desserviço à nossa causa porque apenas
fomentam o descrédito em pessoas serias. Agora - meu Deus! - são Espíritos de
outras galáxias... É demais... Como dizia um colega de magistério,
não-espírita, há pessoas que misturam ficção com imaginação. Não pode sair
coisa diferente mesmo, não é verdade?
Nada tenho contra quem quer que deseje ser
ludibriado por Espíritos galhofeiros nem contra quem coma gato por lebre!
Espíritos desta natureza zombeteira existem muitos, pululando por aqui e por aí
em fora. Certa ocasião, numa série de sessões de desobsessão, através de uma
mesma jovem médium dava comunicação uma entidade que ora se dizia famoso
filósofo, ora se declarava grande cientista, ora renomado líder religioso até
que, numa reunião, o presidente, médium vidente, embora fosse uma pessoa de
pouca instrução material, desmascarou também aquele farsante, que não gostou de
ser desmascarado e explodiu em expressões de rancor!
Mas fico a pensar seriamente o que é que
querem fazer com este salseiro das Arábias! Mediunidade é coisa seria e com
seriedade deve ser exercida. Aliás, em Espiritismo tudo deve ser feito com
seriedade. Eu não escrevi sisudez porque sisudez nem sempre é sinal de
seriedade. Eu escrevi seriedade, palavra que muito tem que ver com
responsabilidade. Ou será que desejam venha a nossa Doutrina a cair no fosso do
gaiato, do cômico, do folclórico?
Pelo amor de Deus, vamos parar com isto que
há muita coisa nobre e pura e ainda para ser tratada, consolando os tristes,
orientando os desalentados, socorrendo os sofredores, educando os moços e as
crianças, alimentando os famintos, dessedentando os sequiosos numa hora em que
o mundo inteiro atravessa grave crise econômica e moral.
Que em outros mundos haja vida, eu não posso
duvidar, porque é uma verdade proclamada pelo Espiritismo e já admitida pelos
astrônomos de renome internacional. Mas eu me reservo o direito de rejeitar
estas mensagens que não resistem a meio patino de uma crítica imparcial.
Mensagens que, repito, não passam pelo crivo do bom-senso, da lógica, da razão,
como fazia e recomendava Kardec!
Todo cuidado sempre será pouco a fim de não
cairmos nas armadilhas dos falsos profetas do Além !
Fonte:
"Atualidade Espírita" – Ed. O Clarim e Portal do Espírito –
www.espirito.org
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