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João Luiz Romão*
“E, tendo medo, escondi na terra o teu talento...” (Mateus, 25:25)
1. Conceituação: a posição da Filosofia e
das Ciências
O que vem a ser o medo? Por que sentimos medo? Como superar o medo? Em geral, o
medo é causado pelo desconhecido, pela ignorância. E são inúmeros: medo da dor,
de envelhecer, de morrer, da solidão, de multidões, de altura, de ser
assaltado, etc., etc. Assim, diversos estudiosos, em geral, têm buscado uma
explicação para este fenômeno tão comum ao ser humano.
Para Aristóteles[1][1], “o medo é uma dor ou agitação produzida
pela perspectiva de um mal futuro que seja capaz de produzir morte ou dor”.
Observa Aristóteles, que não se temem todos os males, mas só os que podem
trazer grandes dores e destruições, e mesmos estes só no caso de não serem
demasiadamente longínquos, mas parecerem próximos e iminentes. Assim, os homens
não temem as coisas muito afastadas: todos sabem que devem morrer mas, enquanto
a morte não se avizinha, não se preocupam com ela.
Já Santo Agostinho[1][2], frisa o caráter ativo (a vontade), como
responsável pelas emoções: “O que é o medo senão a vontade que rejeita coisas
não desejadas?”
Em Descartes[1][3], encontramos que o medo “é o contrário da
ousadia; um frio na alma que paralisa o corpo. Perturbação e espanto da alma
que lhe subtrai o poder de resistir aos males que ela pensa estarem próximos”.
Encontramos em Espinosa[1][4], a seguinte linha de raciocínio:
“A esperança (spes) é uma alegria instável nascida da idéia de uma coisa futura
ou passada de cujo desenlace duvidamos em certa medida. O medo (metus) é uma
tristeza instável nascida da idéia de uma coisa futura ou passada de cujo desenlace
duvidamos em certa medida.
Segue-se dessas definições que não há esperança sem medo, nem medo sem
esperança. Quem está suspenso na esperança tem medo de vê-la frustrada. Aquele
que é vítima do medo, alegra-se na esperança de que a coisa temida não
ocorrerá”.
Scheler[1][5], faz a distinção entre estados emotivos e
funções emotivas. Estados emotivos são modificações de natureza passiva e
funções emotivas; ao contrário, atividades, reações aos estados emotivos. Um
homem pode ser feliz e no entanto padecer de grande sofrimento físico; para um
mártir da fé este padecer se tornaria um feliz padecer. Ou seja, pode-se
enfrentar uma situação que normalmente levaria a um estado de medo, e ter-se
uma reação que adquiriria uma função emotiva caracterizada pela serenidade
íntima.
Já para Freud[1][6], uma emoção como o medo, por exemplo, é
uma preparação para enfrentar o perigo. É um estado biologicamente útil já que
sem ele a pessoa se acharia exposta a conseqüências graves. Dele derivariam a
fuga e a defesa ativa. O desmaio, por exemplo, devido ao medo, seria uma fuga
diante de uma perspectiva desfavorável; a procura de um refúgio ilusório para
alguém que se sente menos capaz de enfrentar determinada situação. Trata-se de
uma reação que denuncia a recusa de enfrentar certos acontecimentos. Quando,
porém, o desenvolvimento de certos estados vai além de determinados limites,
passa a contrariar o objetivo biológico e dá lugar às formas patológicas.
Quando o indivíduo acumula vários tipos de medo e passa a ter medo de quase
tudo, daí derivam estados como mania de isolamento, mania de perseguição, mania
de limpeza, higiene corporal, etc., que deságuam nas imemoráveis fobias.
2. Considerações evangélicas: temor e
amor a Deus
A odisséia desse velho sentimento chamado medo, não passou incólume na epopéia
bíblica. Desde o Velho ao Novo Testamento vamos encontrar diversas situações em
que o medo foi vivido, ensinado e
finalmente substituído por um sentimento mais plenificador: o amor.
Encontraremos no primeiro livro do Pentateuco mosaico, o momento em que após a
queda de Adão e Eva[1][7], os quais provaram o fruto da árvore do
conhecimento, o seguinte diálogo: “Deus chamou o homem: – Onde estás? – Ouvi
teu passo no jardim, respondeu o homem. Tive medo porque estava nu e me
escondi.”
A vergonha da criatura perante o seu Criador, porque se encontrava “despido” do
sentimento de obediência diante da orientação segura do Pai. Este sentimento de
infidelidade e de desobediência deveria ser cerceado por outro mais apropriado
ao sentimento de um povo que se caracterizava pela rudeza no trato com seu semelhante:
o temor. Vejamos: “Terás temor de Jeová, teu Deus...”(Dt, 10:20) “O princípio
da sabedoria é temer a Deus.” (Sl, 111:10).
Para os dias modernos (e lá se vão 2.000 anos), Jesus veio substituir o Deus do
Temor (ou dos exércitos) pelo Deus de Amor (o Pai Nosso), conforme suas palavras:
“Amarás o senhor teu Deus, de todo coração, de toda tua alma. (Mt, 12:13).
Igualmente encontramos: “Não há temor no amor: ao contrário, o perfeito amor
lança fora o temor.” (1Jo, 4:18). Ou seja, não há mais necessidade de temer a
um Deus que pune, mas amar e buscar um Pai que ama, orienta e educa seus
filhos.
3. A abordagem espírita: aspectos
psicofisiológicos
Como método preventivo, a Doutrina Espírita oferece inúmeros elementos para
análise e tratamento no processo de cura dos desequilíbrios emocionais, em especial
o medo. Allan Kardec, na Revista Espírita[1][8],
narra interessante acontecimento (extraído de um jornal à época), em que um
médico (Doutor F...) após realizar algumas visitas aos seus clientes, notou que
havia esquecido na viatura que o trouxera de volta à sua casa, uma garrafa de
excelente rum que ganhara.
Procurando o chefe da estação lhe disse, porém, que esquecera em uma de suas
viaturas uma garrafa de um veneno muito violento e exortou que os cocheiros não
fizessem uso desse líquido mortal. Mal acabara de retornar ao seu apartamento,
quando vieram solicitar o seu concurso em auxílio a três cocheiros da estação
visitada, que sofriam de horríveis dores estomacais, após ingerirem o conteúdo
da garrafa.
Intrigado com o caso, Allan Kardec questiona ao Espírito São Luís sobre uma explicação
fisiológica na possível transformação das propriedades de uma substância
inofensiva em um veneno. Ao que o sábio mentor espiritual respondeu:
“(...) Os espíritos malignos que levaram esses homens a cometerem esse ato de
indelicadeza, fizeram passar no sangue, na matéria, um calafrio de MEDO que
poderíeis chamar magnético, o qual estende os nervos e causa um frio em certas
regiões do corpo. Ora, sabeis que todo frio nas regiões abdominais pode
produzir cólicas. É, pois, um meio de punição que, ao mesmo tempo, leva os
espíritos que fizeram cometer o furto, a rirem às custas daqueles que fizeram
pecar. Mas, em todos os casos, não se segue a morte: não há senão uma lição
para os culpados e prazer para os espíritos levianos. (...) Podemos evitar isso
(falo por vós), em nos elevando por pensamentos menos materiais do que aqueles
que ocupam o espírito desses homens. Os espíritos levianos gostam de rir;
mantei-vos em guarda (...)”
André Luiz, Espírito, por sua vez narra, nas palavras da enfermeira Narcisa,
quando da realização do culto evangélico no Ministério da Regeneração junto ao
Governador da cidade espiritual Nosso Lar, que se via às portas da Segunda
Guerra Mundial. Narcisa informa que o objetivo geral daquele encontro era a
organização dos elementos para o serviço hospitalar urgente com vistas ao
conflito bélico, “bem como exercícios adequados contra o medo.” Ante a
admiração de André Luiz, acrescenta a enfermeira[1][9]:
“Talvez estranhe, como acontece a muita gente, a elevada porcentagem de existências
humanas estranguladas simplesmente pelas vibrações destrutivas do terror, que é
tão contagioso como qualquer moléstia de perigosa propagação. Classificamos o
MEDO como dos piores inimigos da criatura, por alojar-se na cidadela da alma,
atacando as forças mais profundas. A Governadoria, nas atuais emergências,
coloca o treinamento contra o MEDO muito acima das próprias lições de
enfermagem. A CALMA é a garantia do êxito.” (grifo nosso)
A calma e a serenidade são essenciais para enfrentarmos as situações-desafios
que se nos apresentam. Evitam que “alimentemos” nossa imaginação, criando
“fantasmas” assustadores que por sua vez passam a nos perturbar a existência,
conforme esclarece o Espírito Pedro Rosa[1][10]:
“Amigo, desiste de viver em contínuo sobressalto, a temer perigos intangíveis a
cada instante, deste ou desse mundo. (...) O fantasma do MEDO prenuncia enfermidade
e, quase sempre denota ausência de confiança nas Origens da Vida. (...) Se
temes a vida não conseguirás viver normalmente. (...) Não te amedrontes. Guarda
a esperança firme, edificando o futuro. (...) Ajustemo-nos no íntimo e dissiparás
todas as sombras que porventura te envolvam em derredor”.
“Conquanto inquietudes te assaltem, não
te situes à distância da SERENIDADE para atingir o êxito que te propões” – Joanna de Ângelis (“Florações Evangélicas”,
pág. 73).
[1][1]
Retórica. II, 5, págs. 1320 e segs.
Filósofo grego (384-322 a.C.). Discípulo de Platão e preceptor de
Alexandre, o Grande. Dono de saber enciclopédico, escreveu sobre quase todos os
assuntos: Lógica, Filosofia, Física, Metafísica, Ética, Poética, Retórica,
Política, Botânica, Zoologia, etc., além de examinar as teorias das diversas
escolas filosóficas que o precederam na Grécia, em especial os pré-socráticos.
[1][2] A
Cidade de Deus. XIV, 9. Filósofo cristão (354-430 a.C.). Bispo de Hipona,
no norte da África, foi detentor de profunda cultura humanista, sendo um dos
principais responsáveis pela síntese entre o pensamento clássico (em especial
Platão) e o Cristianismo, intentando conciliar Razão e Fé.
[1][3] ABBAGNANO, N., citado por. Dicionário de Filosofia. Renê Descartes
(1596-1650). Filósofo francês é considerado o Pai da Filosofia Moderna.Toda a
obra de Descartes visa mostrar que o conhecimento para ser válido precisa de um
fundamento metafísico. Assim a metafísica é a fundadora de todo conhecimento
verdadeiro.
[1][4] Ethica.
Livro III, dedicado à origem e natureza dos afetos. Baruch Espinosa
(1632-1677). Filósofo holandês de família judia. Foi profundo estudioso da
língua hebraica, do Talmude e da Bíblia, propondo a interpretação histórica dos
textos bíblicos.
[1][5] O
Formalismo na ética e a ética material dos valores. Pág. 262. Max Scheler
(1875-1928). Filósofo alemão que adaptou a fenomenologia de Husserl às questões
éticas (teoria dos valores), e na qual declara que uma ética formal (em oposição
a Kant) deve ser superada por uma apreensão vivida dos valores éticos. Sua obra
valoriza os sentimentos em oposição ao intelecto puro.
[1][6] ABBAGNANO, N., citado por. Dicionário de Filosofia. Sigmund Freud
(1856-1939). Nascido na Áustria de família judia. Foi o fundador da
Psicanálise, tendo formulado os conceitos de inconsciente, libido, o método da
livre associação no tratamento psicanalítico, etc., cujos fundamentos teóricos
colaboraram para a compreensão do psiquismo humano.
[1][7]Gênesis 11:12. Ver também em O Livro
dos Espíritos – questões de 50 a 59, comentário dos Espíritos Superiores e
de Allan Kardec relativo ao tema raça adâmica.
[1][8] KARDEC, Allan. Revista Espírita (outubro de 1858) – São Paulo – IDE, 1993, p. 280.
[1][9] LUIZ, André. Nosso Lar. Psicografia de F. C. Xavier – Rio de Janeiro – FEB,
1984, cap. 42, pp. 213 a 232.
[1][10] ROSA, Pedro. Seareiros de Volta. Psicografia de F. C. Xavier e W. Vieira – Rio
de Janeiro – FEB, 1987, pp. 177/178 – “Fantasmas”.
*O autor é Professor de
Filosofia e integrante do movimento espírita do Rio de Janeiro-RJ.
Fonte:
Revista Internacional de Espiritismo – nov/2004
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