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Obsessão

 

Issam Farhat

 

 Na Revista Espírita (dez/1862; jan/1863; fev/1863; abr/1863 e mai/1863), Kardec nos legou um dos seus estudos mais brilhantes sob o título "Os Possessos de Morzine". Inicia a sua narrativa esclarecendo-nos que uma epidemia abateu a comuna de Morzine, na Alta Sabóia, fato, segundo o codificador, bem característico de uma obsessão coletiva. O seu estudo, a respeito do assunto, principia tecendo considerações sobre a natureza dos Espíritos, sob o ponto de vista moral. Hoje, com cento e quarenta anos de Doutrina Espírita, sabemos que os Espíritos nada mais são que os homens despojados de seus corpos de carne. Sendo a nossa Humanidade reconhecidamente constituída, na sua grande maioria, de Espíritos inferiores, as más qualidades morais do homem são as mesmas dos Espíritos. O que significa que os Espíritos inferiores pululam ao nosso derredor, com seus vícios, suas paixões, suas maldades, exercendo, sempre que podem, sua influência sobre nossas almas. Daí afirmar-nos o codificador que, "sendo a Terra um mundo inferior, isto é, pouco adiantado, resulta que a imensa maioria dos Espíritos que a povoam, tanto no estado errante, quanto encarnados, deve compor-se de Espíritos imperfeitos, que fazem mais mal que bem. Daí a predominância do mal na Terra..." E mais adiante nos esclarece: "É, pois, necessário imaginar-se o mundo invisível como formando uma população inumerável, compacta, por assim dizer, envolvendo a Terra e se agitando no espaço. É uma espécie de atmosfera moral, da qual os Espíritos encarnados ocupam a parte inferior, onde se agitam como num vaso. Ora, assim como o ar das partes baixas é pesado e malsão, esse ar moral é também malsão, porque corrompido pelas emanações dos Espíritos impuros. Para resistir a isso são necessários temperamentos morais dotados de grande vigor".

Vê-se que estamos postos num campo de batalha, submetidos, por força da justiça divina, às amarras das expiações e das provas. Nossa meta, pela mesma vontade desse Pai de Misericórdia, é nos transformarmos de Espíritos inferiores em Espíritos de maior elevação. Para tanto, é mister nos revestirmos da armadura divina, de que nos fala, na sua linguagem inspirada, Paulo de Tarso (Efésios, cap. VI); protegendo-nos com o capacete da salvação, embraçando o escudo da fé e empunhando a espada do Espírito, que é a palavra da Verdade, o que somente nos será possível tendo os pés fortalecidos no caminho redentor do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo; e somente com muita oração e vigilância é que então nos livraremos das potestades malignas soltas no espaço. A dignidade não se compra em armazéns e lojas. E nem tampouco fazendo discursos. Jamais a alcançaremos fora do Espírito de humildade, abnegação e devotamento. "Se queres seguir-me, renuncia a ti mesmo, carrega a tua cruz, e segue-me". Não o esqueçamos.

Um dos produtos mais extraordinários da Natureza é, sem dúvida, o perispírito. Formado do elemento cósmico universal, e por estar sempre presente na formação de novos corpos, é também, por vários estudiosos denominado "campo estruturador da forma". Também é conhecido como "corpo astral", além de outras denominações. Fluídico, etéreo, acompanha o Espírito por toda a eternidade. Nos Espíritos puros torna-se tão etéreo que é como se deixasse de existir ( vide O Livro dos Espíritos, questão 186). A sua formação, partindo dos seres unicelulares, até a idade da razão, quando alcançada pelo homem, conta cerca de um bilhão e meio de anos (André Luiz in Evolução em Dois Mundos). Mais adiante esclarece-nos aquela Entidade: "Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos" (idem, Genealogia do Espírito).

Ao perispírito devemos todos os fenômenos mediúnicos e toda ação magnética, de vez que se faz portador de energias no intercâmbio entre todos os seres. Diz-nos o codificador: "Por sua natureza fluídica, ele irradia exteriormente e forma em torno do corpo uma espécie de atmosfera, como o vapor que dele se desprende. Mas o vapor que se desprende de um corpo malsão é igualmente malsão, acre e nauseabundo, o que infecta o ar dos lugares onde se reúnem muitas pessoas malsãs. Assim como esse vapor é impregnado das qualidades do corpo, o perispírito é impregnado das qualidades, ou seja do pensamento do Espírito e irradia tais qualidades em torno do corpo". Essa realidade espiritual de cada um de nós, tendo o perispírito como espelho de uma realidade de que antes não cogitávamos, nos evidencia, hoje, que a nossa presença, onde quer que nos encontremos, poderá representar um foco infeccioso, altamente daninho ao meio ambiente e ao próprio indivíduo que lhe seja portador, ou um foco de luz benfazeja, veículo de saúde e paz para todos ao seu alcance. "Quem me tocou?" Indaga Jesus. É que uma certa mulher, que sofria de hemorragia há quinze anos, sabedora dos poderes do Divino Mestre, entendeu que bastaria tocar-Lhe para ficar curada.

E, efetivamente, O havendo tocado, ficou curada. Atemorizada, diz-nos o Evangelho de Marcos, mas cônscia do que nela se operava, veio, prostrou-se diante Dele e declarou-lhe toda a verdade. "Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz e fica livre do teu mal". Jesus, com a Sua presença irradiante de luz coroou de êxito a fé daquela mulher, confirmando a sua cura. A história do magnetismo nos dá exemplos de pessoas com grande poder de cura. Jesus mesmo dissera que outros fariam as mesmas coisas que Ele, e muito mais.

Esclarece o codificador: "O fluido perispiritual é, pois, acionado pelo espírito. Se, por sua vontade, o espírito, por assim dizer, dardeja raios sobre outro indivíduo, os raios o penetram. Daí ação magnética mais ou menos poderosa, conforme a vontade, mais ou menos benfazeja, conforme sejam os raios de natureza melhor ou pior, mais ou menos vivificante. Porque podem, por sua ação, penetrar os órgãos e, em certos casos, restabelecer o estado normal. Sabe-se da importância da influência das qualidades morais do magnetizador."

Ora, a mesma ação, boa ou má, que um Espírito encarnado pode exercer sobre outra pessoa, também o pode um desencarnado com relação aos desencarnados. Assim, um desencarnado que envolva, com seu perispírito, a um encarnado, pode exercer sobre este um domínio, controlar-lhe os pensamentos e a vontade, com maior ou menor intensidade, dependendo da força da sua vontade, e ascendência sobre a sua vítima. Diz-nos o codificador: "Tal é a causa da obsessão, da fascinação e da subjugação, que se mostram em diversos graus de intensidade. O paroxismo da subjugação é geralmente chamado possessão."

O nosso modesto trabalho tem fundamento nessa série de artigos que nos legou o codificador sob o título "Os Possessos de Morzine". Voltemos, assim, à lição de Kardec: "Aquilo que um Espírito pode fazer a uma criatura, vários deles o podem sobre diversas, simultaneamente, a dar à obsessão um caráter epidêmico. Uma nuvem de maus Espíritos pode invadir uma localidade e aí se manifestarem de várias maneiras. Foi uma epidemia de tal gênero que se alastrou na Judéia, ao tempo de Cristo, e, em nossa opinião, é uma epidemia semelhante que ocorre em Morzine".

Nem toda obsessão tem causa em mediunidade ostensiva, isto é, psicofonia, psicografia, vidência audição, etc. Tanto assim o é, que, combatida a obsessão, o obsidiado volta à vida normal, livre de qualquer manifestação mediúnica propriamente dita.

A mediunidade ostensiva, todavia, nos é descrita com clareza meridiana pelo codificador ao nos narrar, dizendo: "Se um Espírito quiser agir sobre uma pessoa, dela se aproxima, envolve-a com o seu perispírito, como num manto; os fluidos se penetram, os dois pensamentos e as duas vontades se confundem e, então, o Espírito pode servir-se daquele corpo como se fora o seu próprio, fazê-lo agir à sua vontade, falar, escrever, desenhar, etc. Assim são os médiuns. Se o Espírito for bom, sua ação será suave e benéfica e só fará boas coisas; se for mau, fará maldades..." No que tange à maldade, como já vimos, sua ação poderá gerar uma obsessão simples, ou uma fascinação, ou uma subjugação.

A subjugação, ou possessão, é uma espécie de loucura, chamada "loucura obsessional", provocada então pela atuação de um Espírito mau; de vez que a loucura patológica, essa tem causa em algum tipo de lesão cerebral. Ambas sempre existiram em todos os tempos da Humanidade. "Foi pela mediunidade que os inimigos ocultos traíram sua presença. Ela fez para eles o que o microscópio fez para os infinitamente pequenos: revelou todo um mundo". Daí a grande revolta dos obsessores quando se vêem descobertos. Daí o grande escolho dos trabalhos de desobsessão. Somente médiuns de elevado padrão moral e indiscutível autodomínio são capazes de resistir às reações dos Espíritos inferiores. Se não possuírem tais qualidades, aliadas à sólido conhecimento da Doutrina, não convém nem mesmo tentar. Lembremo-nos da lição em Atos dos Apóstolos, Cap. XIX, versículo 13 à 16: "Alguns judeus, exorcistas ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre possessos de espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega. Os que assim faziam eram sete filhos de um judeu chamado Cevas, sumo sacerdote. Mas o espírito maligno lhes respondeu: Conheço a Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois? E o possesso do espírito maligno saltou sobre eles, subjugando a todos, e, de tal modo prevaleceu contra eles, que, desnudos e feridos, fugiram daquela casa".

Esclarece-nos o codificador que, vencer um obsessor é como lutar contra um adversário. Numa luta corporal entre dois homens, vence o de músculos mais fortes. No caso do obsessor, a luta é de Espírito contra Espírito, e o vencedor será aquele que moralmente for mais forte. Se moralmente estivermos em condição de inferioridade, dificilmente lograremos êxito. O obsessor será senhor da situação. Daí a ineficácia de muitos exorcismos. E só nos livraremos depois que houvermos pago o último ceitil, para utilizarmos de uma expressão evangélica. Conforme o crime que houvermos cometido, sofreremos, pelo sentimento de culpa, a chamada repercussão consciencial, que nos abate e nos enfraquece.

Somente quando houvermos resgatado o nosso débito, uma força superior poderá vir em nosso socorro. O fluido mais puro então penetrará a nuvem negra que nos envolve, fato que provocará a nossa libertação daquele envolvimento maligno e voltaremos então a respirar atmosfera mais pura. No gozo dessa liberdade, o nosso futuro estará dependendo da nossa própria conduta. Vigiai e orai, eis a lição de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que a nossa situação não se torne pior que a anterior (vide Mateus, XII, 43 à 45).

Jamais desdenhemos da oração. Nela, quando feita na arrebatação da fé, encontraremos toda força e toda luz necessárias face às nossas expiações e provas, neste mundo tenebroso. Há alguns anos estivemos com Francisco Cândido Xavier na cidade de Foz do Iguaçu. Lá, de público, o grande médium nos revela que costuma orar todos os dias pedindo ao seu Guia Espiritual para que o livre de si mesmo no que tange aos arrastamentos comprometedores do equilíbrio e da paz da consciência e do Espírito. Perguntaríamos: e nós, que outra oração deveremos fazer?

Fonte: Revista Internacional de Espiritismo – nov/2004

  

 

 

 

Pensamentos

 

 O mundo é a nossa vasta sementeira e o Evangelho é, sem dúvida, o celeiro divino de todos os cultivadores da terra espiritual do Reino de Deus.

Emmanuel/Chico Xavier

 

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Na companhia sublime

Do amigo Excelso e Imortal,

Nós somos semeadores

Da terra espiritual.

Casimiro Cunha/Chico Xavier  

 

 

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