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Paulo Henrique D. Vieira
Muitos confundem o mediunismo em si com o
Espiritismo, e a falta de um conhecimento mais profundo sobre o assunto, leva
muitas pessoas a atribuírem ao Espiritismo codificado por Allan Kardec,
práticas mediúnicas de natureza mística realizadas por outras religiões.
O Espiritismo não criou a mediunidade, visto
que esta foi registrada nas mais longínquas épocas da humanidade, por diversas
civilizações e povos da antigüidade.
Poderíamos mesmo afirmar, que Espiritismo e
mediunismo são duas coisas tão distintas como água e vinho e que a parte
científica do Espiritismo se propõe a estudar o fenômeno mediúnico e o seu
aspecto evangélico visa discipliná-lo, canalizando-o para o bem.
Através da história, podemos constatar que o
Alto sempre procurou auxiliar o homem em sua jornada evolutiva através da
mediunidade, e podemos verificar exemplos disso quando Moisés sobe ao Monte
Sinai e recebe de Jeová os dez mandamentos, que eram dez regras para que um
homem convivesse bem com o outro; ou quando Joana D’Arc - a Donzela de Orleans
- ouve vozes exortando-a à tomar a frente dos exércitos de Carlos VII e
libertar a França; e mais recentemente na avalanche de fenômenos paranormais
que invadiu a Europa no século passado, chamando a atenção do então professor
Hippolyte Léon Denizard Rivail, redundando na codificação do Espiritismo.
Ao longo dos séculos, os fenômenos
mediúnicos nem sempre foram encarados com naturalidade pelos homens e
autoridades religiosas, e muitos médiuns no passado acabaram ardendo nas
fogueiras, taxados de hereges e bruxos.
O fenômeno mediúnico existe e não há como
tapar o sol com a peneira, pois não teria cabimento que milhares de médiuns no
mundo inteiro se reunissem uma vez por semana em seus núcleos espíritas
simplesmente para fingir. E mesmo que assim fosse, porque as gerações que
sucedem estes médiuns continuariam sustentando a mesma farsa?
Ao invés de se ignorar a questão, o homem
deve compreender que a mediunidade deve ser direcionada para o bem, para o
progresso do ser humano.
Alguns religiosos pregam uma proscrição da
mediunidade, baseando-se no capítulo 18 do Deuteronômio, versículo 10 e 11,
onde Moisés afirma: "Não se achará no meio de ti quem faça passar pelo
fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem
agoureiro, nem feiticeiro, nem encantador, nem quem consulte um espírito
adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; (…)"
O legislador hebreu tinha sob a sua responsabilidade
um povo ignorante e indisciplinado, e por isso achou por bem proibir o
intercâmbio mediúnico devido aos abusos que eram praticados na utilização
deste. Agora perguntamos: alguém proíbe uma coisa que não existe?
O Espiritismo ensina que um médium não é um
oráculo ou um adivinho e que a energia medianímica deve ser mobilizada em favor
da sublimação individual e coletiva da espécie humana.
Quando o Espiritismo chegou ao Brasil, na
segunda metade do século XIX, os escravos já praticavam ritos mediúnicos, o que
deu origem a umbanda. Daí conclui-se que médiuns não existem apenas dentro da
Doutrina Espírita.
Algumas pessoas, por exemplo, confundem o
Espiritismo com a Umbanda, porque alguns grupos umbandistas assimilaram
elementos do Espiritismo, dando origem à chamada Umbanda de mesa e a Umbanda de
salão, onde os pontos dos orixás, atabaques e jogos de búzios foram
substituídos por sessões de passes e consultas aos espíritos através de
médiuns.
Denominações como Espiritismo de terreiro,
Espiritismo de mesa branca, e mesmo Espiritismo Kardecista são errôneas, pois
Espiritismo foi um neologismo criado por Kardec para designar a doutrina
codificada por ele e os vocábulos Espírita ou Espiritista são neologismos para
denominar os profitentes de tal doutrina.
Mas a má-fé de alguns ainda teima em
continuar associando o Espiritismo com práticas mediúnicas esdrúxulas, magia
negra e feitiçaria.
Em 1943 criaram a portaria n.º 10.194, que
proscrevia a prática do mediunismo, visando a proibição de toda e qualquer forma
de manifestação mediúnica. O que amparou o Espiritismo naquela época foi um
dispositivo constitucional que consistia na livre adoção religiosa.
Tentou-se até excluir o Espiritismo do
quadro das religiões no censo demográfico, mas graças aos esforços de confrades
como Carlos Imbassahy, que era então membro nato do Conselho de Geografia e
Estatística, como Secretário de Estatística Econômica e Financeira do
Ministério da Fazenda, conseguiu-se a duras penas que o Espiritismo fosse
mantido no rol das religiões. E finalmente no recenseamento feito em 1950, o
Espiritismo foi incluído entre os diferentes cultos religiosos.
As concepções do Estado sobre a realidade
são empíricas e racionais, pois à partir da experiência, capta-se a informação
para então demonstrá-la pela razão.
É por isso que em 1945, quando o então
presidente da Federação Espírita Brasileira, A. Wantuil de Freitas, e Francisco
V. Rocha, Tesoureiro, acompanhados do presidente da Federação Espírita do Rio
Grande do Sul, Roberto Michelena, foram à presença do Ministro João Alberto,
chefe de polícia do DNSP, e apresentaram uma defesa demonstrando que a prática
mediúnica realizada pelos Centros Espíritas não fazia mal a ninguém, levou o mesmo
a revogar a malfadada portaria e com ela as anteriores, deixando a prática
mediúnica livre de qualquer constrangimento policial.
Alguns religiosos tinham o Espiritismo como
algo pernicioso à sociedade e se esforçavam ao máximo em tudo fazer para expatriá-lo
do Brasil.
Não dá para entender como algumas pessoas
que pregam fazer aos outros o que gostariam que os outros lhes fizessem, adotem
comportamentos tais, e é por causa destas atitudes que muitas pessoas não
acreditam na religião, vendo nos religiosos apenas pessoas que usam um rótulo
religioso.
A mediunidade é um patrimônio que todos
possuem, em menor ou maior grau. Ela auxilia-nos a compreensão para um mais
amplo discernimento da realidade. Por ela o homem recolhe informes diversos
quanto à lei das compensações, possibilitando-o equacionar aflitivos problemas
do ser, do destino e da dor; através dela os espíritos patentearam aos homens
que temos muitas vidas, que habitamos muitos corpos, e que os espíritos
percorrem uma escala, sendo a vida terrena apenas o elo de uma cadeia infinita
rumo à perfeição.
O Espiritismo não pode ser responsabilizado
por práticas mediúnicas esdrúxulas e escândalos envolvendo médiuns, porquanto
dentro da Doutrina Espírita a mediunidade é tratada sob a ótica evangélica,
pois o Espiritismo só admite o seu uso para fins de ajuda a enfermos dos dois
lados da vida.
Da mesma maneira que a energia elétrica
exige trabalho do homem com o fim de usá-la a benefício da civilização, assim
também a mediunidade deve ser canalizada para o bem, pois em si mesma é uma
faculdade amoral.
O próprio Jesus esteve em contato incessante
com as inteligências invisíveis, onde levantou doentes, conversou com Moisés e
Elias materializados no monte Tabor e voltou ao convívio dos discípulos depois
do flagelo na cruz - demonstrando que ninguém morre - em sua sublime condição
de "médium de Deus".
BIBLIOGRAFIA:
A
Bíblia em Cd-Rom - Antigo e Novo Testamento. Versão Shammah.
Almanaque
Abril, 2.ª edição 1995 - Estrutura das Religiões.
IMBASSAHY,
Carlos de Brito - A Parte Religiosa do Espiritismo. Revista Reformador, dezembro
de 1991.
LUIZ,
André. Nos Domínios da Mediunidade, 25ª ed. FEB.
Fonte: Jornal Verdade e Luz Nº 173 – Junho/2000
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