|
Antônio Moris Cury*
"Poderia sempre o homem, pelos seus
esforços, vencer as suas más inclinações?
Sim, e, freqüentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta
é a vontade. Ah! quão poucos dentre vós fazem esforços!"
(questão 909 de "O Livro dos Espíritos", a obra basilar do
Espiritismo).
Como é verdadeiro o texto aqui reproduzido!
Com efeito, salvo raras e honrosas exceções,
falta-nos a vontade. A vontade que aqui pode ser entendida como a disposição,
combinada com a disciplina, com a firme determinação.
Os esforços serão pequenos, insignificantes
mesmo.
Por exemplo, se ainda temos a tendência de
falar mal dos outros, tratemos de eliminar a maledicência de nossas vidas,
conscientizando-nos de que este comportamento, além de reprochável, em nada
auxilia; procuremos enxergar e enfatizar o lado positivo, as qualidades dos outros,
com o que, com esse pequeno esforço de impor silêncio sobre esta nossa má
inclinação, estaremos, pela continuada repetição, criando novo e salutar hábito,
em nosso próprio favor e também em favor dos outros, alterando, para melhor, a
nossa educação. Afinal, como bem o definiu Allan Kardec, o ínclito Codificador
da Doutrina Espírita, "A educação é o conjunto dos hábitos
adquiridos" (encontrável na nota lançada depois da resposta à pergunta
685 de "O Livro dos Espíritos").
Exige pequeno esforço, por igual, a
introdução do uso da gentileza e da cortesia em nosso dia-a-dia.
E o esforço, no caso, ficará adstrito
praticamente ao controle pessoal, para que nos coloquemos, nas mais diversas
situações e circunstâncias, sempre depois dos outros, porque, em verdade, ser
gentil e cortês não custa nada.
Não custa nada e, no entanto, produz
excelentes resultados, haja em vista que não há criatura que não aprecie a gentileza
e a cortesia.
De outra parte, não será grande o esforço
exigido para a aplicação da tolerância em nosso cotidiano, particularmente no
que se refira à tolerância sobre as imperfeições alheias, sobretudo se bem
usarmos o raciocínio.
Como sabemos, a Terra é um planeta de provas
e de expiações e, portanto, de categoria inferior no Universo, superando apenas
os chamados mundos primitivos.
Assim, os seus habitantes ainda são
imperfeitos e nela também ainda prevalece o mal, razão pela qual quem procurar
a perfeição na Terra, no estágio em que ela se encontra atualmente, estará
procurando o impossível...
É claro que a todos nós compete, não
obstante, a busca diária do aperfeiçoamento, do crescimento, do progresso
intelectual e moral, uma vez que o nosso planeta é uma verdadeira escola, onde
todos nos encontramos matriculados para aprender, muito aprender.
Logo, se todos somos imperfeitos, cabe-nos
tolerar os defeitos alheios para que, no mínimo, os outros tolerem os nossos
defeitos, que, aliás, não são poucos...
Por outro lado, a razão também indica que o
esforço não será grande para que passemos a ter bom humor, com a eliminação das
queixas, das reclamações, em nossa vida.
Ora, o mau humor e as queixas não resolvem
qualquer problema, nenhuma dificuldade, até porque, se resolvessem, o seu uso
seria altamente indicado, insistentemente recomendado.
Ademais, as queixas, as reclamações, não
conquistam nem mesmo a simpatia de quem nos está ouvindo, como muito bem o
adverte a aguda observação de André Luiz, Espírito, no pequeno-grande livro
intitulado "Agenda Cristã".
O mesmo pode ser dito do mau humor. Se ele
resolvesse, deveria ser usado e até mesmo dele se deveria abusar, como nova
panacéia dos tempos modernos.
Entretanto, o mau humor afasta as pessoas do
nosso convívio, e o convívio, especialmente o bem-conviver, é uma arte.
A rigor, a rigor, o Espírita não deveria ser
mal-humorado, quando menos porque sabe de onde veio, o que aqui está fazendo e
para onde vai, além de conhecer, de cor e salteado, que nada acontece por acaso
e que há forte razão para as dificuldades pelas quais esteja passando, de
qualquer ordem, mesmo que gravíssimas, já que as Leis Naturais são perfeitas e,
por isso mesmo, não sofrem alteração, não havendo, na Criação, privilégio de
qualquer espécie a quem quer que seja.
Bem ao contrário, o Espírita deveria ser
alegre e muito grato pela excelente oportunidade de que desfruta, uma vez mais,
pela via da reencarnação, de poder ajustar e reajustar contas, de poder
corrigir erros, males e equívocos, e seguir aprendendo e evoluindo sempre, na
busca permanente da perfeição relativa e da felicidade suprema, destino final
dos seres humanos.
Por fim, deveria o Espírita ter sempre
presente em seu dia-a-dia a recomendação contida na obra "O Evangelho
segundo o Espiritismo", capítulo XVII, página 276, 111ª edição, FEB, 1995,
assim lançada: "Reconhece-se o verdadeiro Espírita pela sua
transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações
más".
Essas brevíssimas considerações, que
poderiam ser acrescidas de outros tantos e inúmeros exemplos de pequenos
esforços ao nosso alcance, pretenderam demonstrar que todos nós,
independentemente de condições financeiras, étnicas, culturais, sociais,
profissionais, etc., estamos em condições de melhorar sempre, começando ou
recomeçando, fazendo apenas insignificantes esforços, com o que, e até mesmo
sem que muitas vezes o percebamos, estaremos contribuindo para a harmonia e o
equilíbrio das relações humanas, sem contar a melhoria que seguramente advirá
ao ambiente em que nos encontrarmos.
E, é por demais evidente, os primeiros e
maiores beneficiários desses esforços e dessa melhoria seremos nós mesmos.
Aquele que pratica o Bem, que se torna útil
ao semelhante e que, sobretudo, o ama como a si mesmo, só pode ser beneficiado!
*
Advogado e procurador do Município de Curitiba.
Fonte: Jornal Mundo Espírita – Dez/1999
|