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Paulo Alves de Godoy
"Ele, porém,
querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?"
(Lucas, 10:29)
Narra o evangelista Lucas que Jesus Cristo,
certa vez, procurado por um doutor da lei, este lhe perguntou: Mestre, que
farei para herdar a vida eterna?
Percebendo o objetivo capcioso da indagação,
ele limitou-se a indagar: O que está escrito na lei? Como lês?
A réplica do escriba não tardou: Amarás
ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as
tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao próximo como a ti mesmo.
Face o acerto da resposta, o Senhor lhe
disse: Respondeste bem; faze isso e desfrutarás da vida eterna.
O inquiridor, entretanto, não ficou
satisfeito e para justificar-se, aventurou nova pergunta: Quem é o meu
próximo?
A fim de elucidar melhor a questão, o Cristo
propôs-lhe uma parábola, dizendo:
Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e
caiu nas mãos de salteadores, os quais, após despojá-lo de tudo, espancaram-no,
deixando-o moribundo à margem da estrada.
Coincidentemente descia pelo mesmo caminho
um sacerdote. Vendo-o, passou de largo.
Logo a seguir descia um levita, cujo
procedimento não foi diferente daquele do sacerdote.
Entretanto, dentro em pouco surge um um
samaritano que, vendo-o naquele estado deplorável, moveu-se de íntima compaixão
e, descendo de sua cavalgadura, levou-o a uma hospedaria, onde continuou a
cuidar dele.
Tendo que partir, no dia seguinte, deu dois
dinheiros ao hospedeiro, recomendando-lhe que continuasse a dar-lhe
assistência, prontificando-se a pagar, em sua volta, tudo aquilo que excedesse
a importância deixada.
Após ensinar essa parábola, indagou Jesus:
Qual destes três te parece que foi o próximo do homem que havia sido vítima dos
salteadores, merecendo do doutor da lei a resposta: O que usou de
misericórdia para com ele.
Diante desse discernimento aduziu o Senhor: Vai,
e faze da mesma maneira.
O ensino propiciado por Jesus Cristo nessa
edificante parábola é dos mais significativos. Nele podemos apreciar o
exercício da caridade despretensiosa, incondicional, em seu sentido amplo, sem
limitações.
O samaritano, considerado herege e apóstata
pelos judeus ortodoxos, foi o paradigma tomado pelo Mestre para nos ensejar tão
profundo ensinamento.
O grande mérito da parábola consiste em
fazer evidenciar aos nossos olhos que, o indivíduo que se intitula religioso e
se julga virtuoso aos olhos de Deus, nem sempre é o verdadeiro expoente de
virtudes que julga possuir. Ensina aos outros como fazer caridade, mas ele nem
de longe quer praticá-la.
O sacerdote que passou primeiramente,
certamente atribuía a si qualidades excepcionais e se julgava zeloso cumpridor
da lei e dos preceitos religiosos. Ao deparar com o moribundo, com certeza
balbuciou uma prece em seu favor, mas daí até a ajuda direta a distância é
enorme. O mesmo deve ter sucedido com o levita.
O samaritano, considerado desprezível pelos
judeus ortodoxos, mas cumpridor dos seus deveres humanos, não se limitou a
condoer-se do moribundo. Chegou-se a ele e o socorreu da melhor forma possível,
levando-o em seguida a um lugar de repouso onde o assistiu melhor,
recomendando-o ao hospedeiro e prontificando-se a ressarcir todos os gastos
quando da sua volta.
A caridade foi ali dispensada a um
desconhecido, e quem a praticou não objetivou recompensa, o que não é muito
comum na Terra, onde todos aqueles que praticam atos caridosos, logo pensam nas
recompensas futuras, na retribuição na a vida espiritual.
Os samaritanos eram dissidentes do sistema
religioso implantado na Judéia - eram os protestantes da época. Com o fito de
demonstrar a precariedade dos ensinamentos da religião oficial, Jesus Cristo
figurava os samaritanos como sendo aqueles que melhormente haviam assimilado os
seus ensinos, concretizando em atos tudo aquilo que aprendiam através das
palavras.
Além de nos ensinar o feito generoso do
samaritano da parábola, o Mestre também os tomou como paradigmas em outras
circunstâncias, para ilustração reportemo-nos ao majestoso ensino sobre a
Mulher Samaritana (João, 4:5-30) e o da cura de dez leprosos, dentre os quais
apenas um que era samaritano lembrou-se de voltar para render graças a Deus
pela cura obtida (Lucas, 17:11-19).
Fonte:
Jornal Mundo Espírita de Janeiro de 1998
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