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Revista
Internacional de Espiritismo
Proibições
religiosas do passado, ao livre pensar, estão entre os fatores que mais
afastaram os cientistas de ligações com a religião.
Amadurecimento intelectual da atualidade, todavia, está mostrando que a ética
está presente em tudo e que há uma inteligência suprema como causa original.
Por esta simples razão a conciliação entre Deus e a Ciência é decorrência
natural da evolução
Bacharel e Licenciado em Física,
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, com cursos de pós-graduação na área
de Didática da Física, Matemática e Probabilidades, além de Mestre em
Lingüística e Professor Universitário na PUCRS, nosso entrevistado é
pesquisador e conferencista (com participações no movimento espírita e em sua
área profissional, inclusive no exterior), com diversos livros e artigos
publicados. Atuando em Porto Alegre-RS, onde reside, apresentamos-lhe uma série
de perguntas ligadas a partir do tema Deus e a Ciência - A Nova Física e o
Espírito, apresentado no 4? Congresso Estadual do Rio Grande do Sul (ocorrido
em novembro de 2003 em Porto Alegre), cuja competência e profundidade das
respostas trazem aos leitores uma ampla visão do assunto em foco. Enfoque didático
das respostas e análise coerente, colocam em evidência a excelência da Doutrina
Espírita.
RIE - No 4? Congresso Estadual Espírita, de Porto Alegre- RS, promovido
pela FERGS, o Sr. apresentou o trabalho intitulado Deus e a Ciência / A Nova Física
e o Espírito, que despertou muito interesse dos participantes. Que parâmetros
nortearam a elaboração e desenvolvimento do tema?
Moacir Costa Araújo Lima - O tema
se desenvolveu a partir de um exame atento dos novos paradigmas da ciência. O
modelo mecanicista, base da física tradicional, descrevia o Universo em função
das propriedades da matéria, em cuja substancialidade repousavam as leis
científicas. A postura natural do cientista se enquadrava no materialista.
Convém não esquecer, no entanto, que
foram as proibições religiosas ao livre pensar e à investigação isenta,
materializadas na inquisição, os fatores que mais afastaram os cientistas de
qualquer postura de caráter religioso. Liberta das amarras da inquisição, a
ciência seguiu seu caminho próprio, onde um Deus vingativo e obscurantista não
poderia ter lugar.
No entanto, com a evolução, a própria
ciência foi questionando seus modelos. Surgiram modificações importantes, ainda
hoje em plena efervescência, que num primeiro momento questionaram a
substancialidade da matéria. Novas leis, novos modelos foram modificando a
estrutura conceitual d Universo e, hoje, cientistas de vanguarda afirmam ser o
Universo mais parecido com um gigantesco pensamento do que com qualquer outra
coisa puramente material.
Einstein, que em sua juventude
afirmara que o Universo explicaria a si mesmo, conclui, mais tarde, ser
impossível entendê-lo sem um poder pensante e operante diferente dele. Há, no
campo da Filosofia da Física, uma abertura para o espírito.
RIE
- Há, na atualidade dos debates espíritas, várias abordagens sobre Deus e
Espírito, à luz dos conhecimentos da Física. Há como conciliar tais temas?
Moacir - A conciliação de temas
como Deus e a ciência é uma decorrência natural da evolução dos conceitos da
Física. Fala-se atualmente em grau de consciência das partículas; o observador
não é mais alguém que à distância observa fenômenos, mas sim um co-criador da
realidade circundante.
É a mente do observador que faz o
elétron assumir o comportamento de onda (energia pura) ou partícula (matéria).
Acreditar que o Universo e a vida se originariam do acaso, a partir de uma
gigantesca explosão, o big-bang, é tão lógico quanto admitir que como
conseqüência de uma enorme carga de explosivos detonados em uma tipografia,
teríamos uma coleção de livros finamente encadernados. Não faz sentido atribuir
ao acaso um Universo, que depende para seu funcionamento, apenas sob o ponto de
vista material, de uma combinação de valores de inúmeras constantes físicas,
precisas até mais de doze decimais.
RIE
- As leis da Física demonstram a naturalidade das Leis Naturais. Os estudiosos
da Física, especialmente os mais destacados, chegam a perceber a grandeza das
Leis Divinas através de tais conhecimentos?
Moacir - Ao investigar as leis
naturais e a ordem que a elas subjaz, os estudiosos vêem uma manifestação de
inteligência. Tais leis não surgiriam ao acaso. Manifestam ordem.
Enquanto um físico tradicional
tentaria descrever o Universo em função das propriedades da matéria, um físico
contemporâneo nos dirá que o cosmos se compõe de duas coisas básicas: energia e
intenção.
Universo é uma vasta rede de
informações e os objetivos científicos são criados dentro da teoria. Hoje
falamos em objetos materiais - os mais fracos candidatos a objetos científicos
-, objetos platônicos e objetos ideais.
Alguns lógicos modernos consideram que
os números não são simplesmente criação da mente humana. Entendem que esses
existiriam, mesmo antes de pensados pelo homem, num plano das idéias e aduzem:
"mesmo que por um acidente de evolução o ser humano não se tivesse tornado
capaz de abstrair, a idéia de número existiria em algum lugar, à espera de ser
captada por mentes evoluídas". Esse "algum lugar" e essa idéia
preexistente não nos remete a um plano superior, onde há pensamento e,
conseqüentemente inteligência?
RIE - Como entender a expressão A Nova Física e o Espírito, usada no
título de sua apresentação?
Moacir - A Nova Física e o
Espírito trata exatamente dessa aproximação epistemológica entre a ciência e a
espiritualidade. Aliás, lembra a famosa discussão sobre a natureza do elétron:
seria onda ou partícula. Às vezes seu comportamento era ondulatório; outras
vezes corpuscular.
Depois de muita discussão dos físicos,
surge De Broglie e diz: "O elétron é algo que às vezes se comporta como
onda e às vezes como partícula". Foi uma declaração revolucionária, porque
onda e partícula eram conceitos mutuamente excludentes. E diante da pergunta: O
que é de fato o elétron? De Broglie já responderia: Algo que às vezes se
comporta como onda e às vezes como partícula. Algo que não podemos dizer
exatamente o que é. Algo que descrevemos de diferentes maneiras, conforme se
apresenta à nossa limitada observação.
Encontramos em Kardec e em Chico
Xavier descrições semelhantes, quando esses mestres apontam para diferentes
graus de densificação da matéria, que não é causa e sim conseqüência, e usam
expressões como "matéria quintessenciada", em Kardec e "a
matéria é filha da luz", em Chico Xavier antecipando-se à Física de seu
tempo. As leis universais não obstam; pelo contrário, auxiliam a compreensão da
realidade espiritual, que é a essência, a realidade primordial.
RIE - Como podemos entender, à luz da Doutrina Espírita e também à luz da
Ciência atual - extrapensamento espírita -, a expressão Deus e a Ciência?
Moacir - Os pensamentos estão se
tornando convergentes. Universo na perfeição de suas leis revela uma
inteligência superior. Uma ciência aprofundada, buscadas as conseqüências
filosóficas de suas leis, apontará para Deus e, via de conseqüência, para a
imortalidade do homem. Kardec, prevendo a importância do conhecimento
científico, afirmou: "o Espiritismo será científico ou não
subsistirá".
Substituiu a imposição de uma fé
obscurantista e irracional, que leva ao fanatismo, pelo conceito de fé
raciocinada, estabelecendo como elemento definitório desta última a
possibilidade de encarar a razão face a face. No momento que agora vivenciamos,
esses posicionamentos ganham cada vez maior importância, uma vez que as
pessoas, mesmo desconhecedoras do formalismo da ciência, nela acreditam e
exigem raciocínio lógico em que possam fundamentar sua crença.
RIE
- Como professor de Física, o Sr. costuma fazer comparações, ainda que para o
próprio uso e reflexões, entre os conhecimentos espíritas e os conhecimentos da
Física?
Moacir - A ligação entre o
conhecimento espírita e da espiritualidade em geral, com as leis da física,
sempre foi o assunto que mais me atraiu. Acredito que num amanhã não muito
distante, munidos de adequada instrumentação, que passa sem dúvida pela
mediunidade, estudaremos a Ciência do Espiritismo com a mesma naturalidade que
estudamos a impropriamente chamada ciência material, que preferimos chamar, por
ora, ciência oficial.
O universo é uma enorme rede de
informações. Para informações mais sutis, equipamentos mais sutis. Nossos
sentidos físicos não registram todas as cores e todos os sons que existem. A
diferença está na freqüência; está relacionada às vibrações.
Hoje admitimos tranqüilamente a
existência da percepção extra-sensorial. Do buraco negro aos quarks passamos
por um universo desafiados que fez da física "uma aventura do
pensamento". Com o mesmo grau de ousadia e exame da corroboração de
hipóteses, estamos desafiados a lançar as percepções de nosso sistema
cérebro-mente, no caminho da comprovação das leis do espírito, com o que teremos
uma ciência completa, capaz de ver o homem e o universo, a matéria e o espírito
criador, numa maravilhosa síntese de evolução para o amor.
RIE - Do ponto de vista do macro e microcosmo, as leis da Física podem
ser consideradas iguais?
Moacir - A comparação entre o
micro e o macrocosmo, bem como sua classificação, é um problema de capacidade e
tamanho do observador.
A teoria da relatividade responde à
pergunta ao estabelecer que não há fenômeno físico de "per si". Todo
o fenômeno depende do observador. Somos, em matéria de tamanho, o meio termo
entre o elétron e um astro de primeira grandeza. Isto significa que somos
tantas vezes maiores do que um elétron quantas um astro de primeira grandeza é
maior do que um de nós. Imaginemos quantas vezes Canopus do Navio, estrela de
primeira grandeza, um milhão e trezentas mil vezes maior do que o nosso Sol,
que por sua vez, em volume, também é mais de um milhão de vezes maior do que a
Terra, é maior do que um de nós. Exatamente tantas vezes quantas um de nós é
maior do que um elétron.
Por isso, a observação do
infinitamente pequeno se torna difícil de interpretar e desafia os nossos
padrões tradicionais. Sem saber que o homo sapiens havia estabelecido exclusão
entre matéria e energia, o elétron, num comportamento desafiador, ora se
manifesta como esta, ora como aquela. Assim, em relação ao infinitamente
pequeno e tomando por base as informações que recebemos no dia a dia, as
imagens se tornam distorcidas.
Quanto menor o ente físico observado,
mais se salienta o caráter de onda, em relação ao da partícula. Entretanto, as
grandes leis incidem sobre o todo cosmos. A separação se deve a nosso tamanho e
nossa limitadíssima capacidade de percepção sensorial.
Avançando no terreno da especulação
filosófica, amanhã entenderemos que determinadas leis, que consideramos
restritas ao plano da ética, são verdadeiramente leis universais, que a
distintos observadores se manifestam sob diferentes aspectos.
Os físicos já falam em grau de
consciência das partículas e entendemos que, num futuro não muito distante, o
homem entenderá e respeitará a lei do amor, como hoje interpreta e entende a
lei da gravidade, ou outra lei da física qualquer, inclusive aquela que une
átomos afins para a formação de compostos mais complexos.
RIE
- O desenvolvimento destes temas, à luz do Espiritismo, costuma despertar novos
campos de pesquisa e estudo? Quais seriam?
Moacir - A união entre os
conceitos da ciência e da espiritualidade tem, num primeiro plano,
conseqüências filosóficas importantíssimas. O entendimento de nossa natureza
transcendente, feito com o aval e o rigor da investigação científica, nos
levará a estabelecer uma nova escala de valores.
A ignorância de sua verdadeira
natureza leva ao homem a um equivocado planejamento de sua felicidade e
realização. O herói do ter, vazio em conteúdo, embora cercado de bajuladores e
festejado por muitos hipócritas, dará origem ao herói do ser. O homem buscará o
ser, sendo o ter uma conseqüência.
Não significa o desprezo pelos bens
materiais e às boas coisas da vida, mas sim buscá-las de modo ético, para que
saibamos possuir possuindo e não possuir possuídos.
Entenderemos que o ter é fugaz
enquanto o ser é definitivo. No terreno da investigação científica surgem novos
estudos sobre a aura humana; as trocas de energia demonstrando os efeitos do
passe e o estudo dos campos vibratórios a mostrar que só recebemos energia
correspondente às freqüências em que somos capazes de vibrar. Nos conectamos,
via freqüência vibracional, com a luz ou com a sombra e, assim, somos os
responsáveis pela construção de nosso destino.
Na Universidade Federal do Rio Grande
do Sul existe um Núcleo Interdisciplinar de Estudos Transdisciplinares da
Espiritualidade (NIETE). É a realidade do espírito, ganhando cidadania
acadêmica e rompendo preconceitos que ainda empecilham o verdadeiro
conhecimento do homem sobre si mesmo.
RIE - No estudo de temas como fluídos, campo magnético, leis da matéria,
princípio espiritual e princípio material, dentro dos grupamentos espíritas -
onde nem sempre há físicos ou estudiosos da área -, que tipo de contribuição
mais expressiva oferece a Física, ainda que diante de leigos? E como utilizar
isso nos grupos de estudos espírita?
Moacir - A física vem trazer
conclusões isentas e, conseqüentemente, plenas de credibilidade. Se o religioso
diz ter encontrado Deus e o espírito pelo caminho da fé, os céticos e os leigos
depreciarão suas conclusões, dizendo que ele encontrou o que estava predisposto
a encontrar. Se a ciência, por caminho diverso, chega à mesma conclusão,
inclusive derrogando velhos paradigmas, a credibilidade será maior e os
descrentes terão sérios motivos para começarem a cultivar uma fé raciocinada e
capaz de implementar sua evolução.
Nos estudos da espiritualidade, mesmo
para aqueles que não possuem uma iniciação científica, as novas conquistas da
ciência podem ser transmitidas por quem tenha habilidade didática para fazê-lo.
Espíritos de boa vontade, amoráveis, fraternos, dedicados à causa da
espiritualidade, estão, sem dúvida, realizando importantes tarefas, entre as
quais a de seu próprio crescimento espiritual. Outros dedicar-se-ão mais aos
estudos e à pesquisa. A união desses dois grupos reforçará aquela fé que Kardec
sempre sonhou, que apanha as duas características: Sem obras é morta e sem
raciocínio conduz ao fanatismo.
RIE - Quais são suas as palavras finais.
Moacir - Sejam minhas palavras
finais para enviar um fraterno abraço a todos os irmãos que se dedicam, através
da prestigiosa Revista Internacional de Espiritismo, à divulgação de temas
sérios, culturais, de alta valia para a educação e evolução do homem.
Publicado
na RIE - ano LXXIX - número 05 - junho 2004 e transcrito por Mara Fialho
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