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Hermínio
C. Miranda
O escritor conta
uma história real e inédita que aconteceu em sua própria família.
Quando a redação me solicitou um artigo para Universo Espírita, pensei
inicialmente numa dissertação teórica sobre a reencarnação, um dos temas de
minha preferência. Em torno desse eixo central, imaginava eu, estariam girando
dispositivos complementares e ilustrativos, como livre arbítrio e determinismo,
causa e efeito, aprendizado, a função da dor, as angústias do sofrimento aparentemente
inexplicável, as correções de rumo em nossos roteiros evolutivos, nossas
experimentações com a moral e a verdade, nossa interação, enfim, com as leis
divinas.
Em outras
palavras: aquilo que poderíamos considerar nossos direitos e deveres ante o
código ético explicitado com luminosa simplicidade e sabedoria nos ditos e
feitos do Cristo.
Procuraria
alinhar reflexões regidas pela ótica de que, por mais que tentem nos convencer
do contrário, Jesus não cuidou de fundar uma religião mas de outorgar-nos uma
doutrina de comportamento responsável pela lei universal do amor.
Mas disso –
pensei eu – todo mundo sabe, especialmente no meio espírita brasileiro
familiarizado com os ensinamentos doutrinários.
Daí porque
virei a página teórica e me propus a contar-lhes uma historinha, da qual posso
dizer, como se faria em linguagem cartorial, dou fé em testemunho da verdade.
Nada tenho
contra a ficção, que constitui valioso instrumento de expressão; minha
história, contudo, não é fictícia, nem foi colhida na literatura ou em testemunhos
de segunda mão.
Eu a “vi”
nascer, esboçar seu enredo, desenvolver-se e chegar a uma conclusão didática e
dramática, quase trágica. Ou seja, trata-se de um relato com princípio, meio e
fim. Não lhe acrescentei nada e só retirei dele ou modifiquei nomes próprios e
referências geográficas, a fim de preservar o sagrado direito que todos temos à
privacidade.
A HISTÓRIA
A
experiência foi vivida por um primo meu, ao qual atribuo o nome de João. O avô
materno dele era irmão de minha avó materna.
Tivemos, na
infância, uma convivência ocasional nos eventuais encontros da família.
Vivíamos em localidades diferentes e eu era cerca de dez anos mais velho do que
ele, o que, por si só, marcava um breve hiato entre nós dois.
Por algum
tempo, os ventos da vida sopraram as velas de nossos barcos para diferentes
paragens.
Reencontramo-nos, acidentalmente e já adultos, algumas décadas depois. O primo
João tornara-se um bem sucedido profissional liberal e político local. Era um
sujeito alto, vistoso, inteligente, bom comunicador, alegre, elegante, sempre
bem vestido pelas suas grifes prediletas.
Casara-se e
tinha um casal de filhos adolescentes. Meu primo terceiro tornar-se-ia um
jurista competente e respeitado. A moça, não menos brilhante que o irmão, foi
para os Estados Unidos fazer seu PhD, creio que em Física Quântica. Alguém me
diria mais tarde que por lá ficara, casada com um colega de estudo e profissão.
Tratava-se,
portanto, de uma família bem estruturada composta de gente intelectualmente
bem-dotada e feliz, tanto quanto se pode sê-lo nesta dimensão da vida.
João tinha,
porém, um problema. Convivia com uma terrível e clinicamente indecifrável dor
de cabeça. Identificava-a como enxaqueca. Teve acesso aos melhores
especialistas, os chamados “papas” da medicina.
Passara por
toda a sofisticada parafernália da tecnologia científica de primeiro mundo. Sem
o menor alívio ou o mais tímido raio de esperança de livrar-se daquele
excruciante sofrimento. Pelo contrário, o mal foi se agravando nos anos de
maturidade biológica.
Tomava doses
maciças de medicamentos especialmente analgésicos. Precisava trabalhar, mas as
crises foram se tornando mais freqüentes e mais longas.
Durante os
picos de desconforto, ficava retido em casa, na cama, em aposento protegido
pela penumbra, pois até a luminosidade do dia o incomodava.
Desinteressado dos aspectos espirituais da vida, acabou cedendo a insistência
de amigos e amigas – era pessoa bem relacionada e estimada nas redondezas – e
resolveu entregar-se, algo relutante, aos cuidados de um grupo espírita local.
Foi quando
me procurou pessoalmente por causa de um episódio fortuito.
Numa de suas
visitas ao Centro, ficara a observar um jovem que trazia certo livro de estudo
nas mãos. Viu de relance a capa colorida e pediu ao rapaz para ver do que
tratava a obra. Chamava-se o livro Diálogo com as sombras e o autor era eu, seu
primo!
Ao me contar
o incidente, mostrava-se visivelmente emocionado e perplexo.
-Você nunca
me falou “disso”! – queixou-se.
-Você nunca
me perguntou! – respondi.
Para
encurtar a história: João começou ler obras espíritas e foi se empolgando com o
que nelas aprendia. Fazia, às vezes, dois ou três interurbanos para comentar os
seus achados e suas reflexões, bem como pedir informações adicionais e
orientações de leituras subseqüentes. Leu Kardec, André Luiz e, naturalmente,
alguns livros do primo. Lembro-me da funda impressão que lhe causou uma das
minhas Histórias que os espíritos contaram.
Guardava
ensinamentos e passagens na memória, relacionava diligentemente uns com outros,
armava suas próprias conclusões e formulava especulações mais avançadas.
Parecia,
finalmente ter encontrado um caminho aberto em território antes ignorado e
fechado ao seu entendimento e interesse.
REVELAÇÃO
Devo, a esta
altura, dar um passo ou dois atrás nessa narrativa.
Em duas
oportunidades – bem antes de João mergulhar na leitura doutrinária – eu havia
pedido orientação espiritual sobre o seu aflitivo problema, a fim de poder, de
alguma forma, ajudá-lo, mesmo porque o nome dele figurava há muito em nosso
caderno de preces.
Em ambas as
vezes, o texto psicografado fora curto e reticente, com as habituais palavras
de conforto, paciência e esperança. Dizia, ainda, que nossos amigos espirituais
estavam fazendo o possível para minorar-lhe o sofrimento.
Enquanto
isso, a dor de cabeça persistia, irremovível, severa e inacessível à medicação.
Dizia ele que era uma dor latejante e “circular”, ou seja, em torno da cabeça,
passando pela testa e contornando todo o crânio, pelas têmporas, acima das
orelhas e da nuca.
Ia João
adiantado em suas leituras doutrinárias, já mais familiarizado com seus
princípios fundamentais, quando, para surpresa nossa, recebemos uma longa
comunicação mediúnica. Infelizmente não tenho o texto em meus arquivos, pois
entreguei os originais a ele.
O documento
dizia, em suma, que nosso querido irmão João inventara, em passado
inquisitorial, um instrumento de tortura destinado a “facilitar” a obtenção de
“confissões” que “justificassem” a condenação de hereges.
Tratava-se
de uma fita de aço, provida de um dispositivo semelhante a um torniquete, que
permitia aumentar gradativamente a pressão em torno do crânio da vítima. Era
freqüente, nessa tenebrosa prática, morrer o infeliz torturado por uma fratura
irrecuperável da caixa craniana. De certa forma, portanto, estaria explicada –
ainda que não automaticamente curada – a dor de cabeça que atormentava o primo
João. A lei cármica tem seu lado compassivo, porque espera e nos entrega nas
mãos os recursos de que necessitamos para corrigir os rumos, mas nem por isso
deixa de ser severa, como convém e precisa ser.
Seu
propósito não é o de punir, pura e simplesmente, mas o de educar. Lembram-se da
advertência de Cristo? “Vai – disse ele – e não peques mais para que não te
aconteça coisa pior”.
Com mais
algum tempo, a dor parece haver-se tornado pelo menos suportável. Ou será que
ele apenas mudara a sua postura diante dela? Seja como for, ela estava lá, sem
muito espaço a ceder. João ficara sabendo o porque do sofrimento, entendia-o e
o aceitava resignadamente e até com humildade. A lição, portanto, estava
aprendida, mas as chagas deixadas pelo remorso no seu psiquismo precisavam
ainda de algum tempo para a necessária cicratização.
De repente,
aconteceu uma imprevista autenticação de tudo aquilo. Não que João precisasse
de tal confirmação, mas funcionou como dramático fecho para o antigo episódio
de sua história pessoal.
Certo dia,
claro e luminoso, ia João pela estrada de volta a casa, dirigindo seu carro –
sempre novo, como ele gostava, - quando perdeu inexplicavelmente o controle da
máquina. O veículo derrapou, e capotou e ele foi projetado para fora através do
vidro traseiro.
Noma fração
de segundo, viu-se estirado no chão, dolorido, mas ainda lúcido e,
aparentemente, sem qualquer fratura, o que as radiografias iriam confirmar.
Sentou-se à
beira da estrada, ainda aturdido e percebeu que algum instrumento cortante
(Vidro? Lâmina de aço?) havia arrancado praticamente todo o seu couro cabeludo,
que lá estava pendurado por uma tira que se preservara ao longo do corte
realizado com precisão cirúrgica. Não o vi neste estado, mas somente depois da
reconstituição por numerosos pontos.
Ele me diria
mais tarde que deveria estar com uma aparência hedionda, pois assustou o
pessoal do hospital ao qual fora recolhido.
Estavam
todos perplexos ante aquela figura indescritível caminhando por suas próprias
pernas, ainda que amparado, como se nada de mais houvesse acontecido.
Detalhe
significativo: além de costurar o couro cabeludo no lugar que lhe competia, foi
igualmente costurada uma rodela separada, do tamanho de um fundo de copo, que
se despregara de uma região do alto da cabeça, mais para trás. Por
“coincidência”, nas imediações do local onde os sacerdotes costumavam usar uma
“coroa” caprichosa e regularmente raspada pelos cabelereiros. (Eu os via com
freqüência, na infância, mas parece que os padres de hoje não usam mais a
“coroa” [1] para simbolizar a humildade, segundo me ensinaram).
Fui
visitá-lo, já em casa, em franca recuperação. Estava tranqüilo e pensativo.
O acidente
batera com assombrosa precisão com o que fora informado meses antes, na
mensagem psicografada, que, a essa altura, de tanto ler e reler, ele a sabia de
cor.
O corte
circundava-lhe a cabeça, a começar da sobrancelha esquerda, seguia por cima da
orelha, passava pela nuca e terminava do outro lado junto do olho direito.
Foram preservados os olhos e as orelhas apresentavam apenas alguns arranhões de
menor importância.
Se você
colocasse uma tira de aço em volta da cabeça de uma pessoa e cortasse o couro
cabeludo com uma faca afiada ou um bisturi, talvez não conseguisse fazê-lo com
tamanha precisão. A mesma precisão, aliás, das leis inescritas de Deus, quando
prescrevem rigoroso encadeamento segundo o qual as reações se seguem a cada
ação que praticamos, as boas e as “outras”...
PS. Meu primo João morreu de causas naturais alguns anos depois. Que Deus o
abençoe, onde estiver e creio que ele está bem, pois entendeu e aceitou a lição
de vida que lhe foi ministrada de modo tão insólito e dramático.[2]
OS LIVROS
Hermínio
Miranda escreveu mais de 30 obras entre livros de sua autoria e traduções.
Separamos aqui as que estão disponíveis no mercado editorial. A classificação
também segue os parâmetros desse mercado. Acompanhe os diversos temas
desenvolvidos pelo autor:
FILOSÓFICOS
A Reinvenção da Morte – Lachâtre
Swendenborg – Uma Análise Crítica – Celd
As Mil Faces da Realidade Espiritual – Edicel
Lembranças do Futuro (Opúsculo) – Lachâtre
Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos – FEB
Autismo – Uma Leitura Espiritual – Lachâtre
REENCARNAÇÃO
As Sete Vidas de Fénelon – Lachâtre
Reencarnação e Imortalidade – FEB
Guerrilheiros da Intolerância – Lachâtre
DISSERTAÇÕES
As Marcas de Cristo – Vol. 1 e Vol. 2 – FEB
Nas Fronteiras do Além – FEB
A Reencarnação na Bíblia – Pensamento
O Evangelho Gnóstico de Tomé – Lachâtre
Candeias na Noite Escura – FEB
Cristianismo e a Mensagem Esquecida – Clarim
CIENTÍFICOS
A Memória e o Tempo – Lachâtre
Eu sou Camile Desmoullins. Co-autor Luciano dos Anjos – Lachâtre
Alquimia da Mente – Lachâtre
Arquivos Psíquicos do Egito – Lachâtre
Condomínio Espiritual – Fé
EDUCAÇÃO
Nossos filhos são Espíritos – Lachâtre
MEDIUNIDADE
O Que é Fenômeno Mediúnico – Correio Fraterno do ABC
Diversidade dos Carismas Vol. 1 e Vol. 2 – Lachâtre
DOUTRINAÇÃO
O Exilado – Correio Fraterno do ABC
Histórias que os Espíritos Contaram – Leal
A Irmão do Vizir – Correio Fraterno do ABC
A Dama da Noite – Correio Fraterno do ABC
Diálogo com as Sombras – FEB
[1] COROA OU TONSURA – A tonsura era muito utilizada pela Igreja para designar
o grau de clericato de um padre. Ela se caracterizava pelo corte dos cabelos,
de maneira circular, na parte posterior da cabeça, ficando uma “calvície” com o
cabelo a circundá-la. Conforme o clérigo ia se adiantando nas ordens católicas
o diâmetro do corte era alargado. Simbolicamente significava o abandono de toda
a vaidade e também a vida consagrada a Deus. Era como um sinal de que se pertencia
a um mundo além da matéria. Na Idade Média sua utilização era obrigatória.
Também conhecida como coroa, caiu em desuso em meados do século 20, apesar de
alguns clérigos ainda a utilizarem. No Brasil uma tribo de indígenas do Rio
Grande do Sul foi batizada de Coroados porque também tinham a tonsura, até hoje
não se descobriu o significado de sua utilização pela tribo. Posteriormente o
nome se generalizou a todos os índios que se identificavam pela maneira de cortarem
os cabelos.
[2] Conheça HERMÍNIO C.
MIRANDA – Hermínio Correa Miranda nasceu no dia 5 de janeiro de 1920, em Volta
Redonda – RJ – Formou-se em Ciências Contábeis e trabalhou na Companhia
Siderúrgica Nacional até aposentar. Morou a trabalho em Nova York, onde
aprimorou seu inglês e se tornou um exímio tradutor dessa língua. Conheceu o
Espiritismo por intermédio de um amigo que o indicou a leitura dos livros da
Codificação. Justamente nesse período, Hermínio estava insatisfeito com os
modelos religiosos que tinha por opção. “A surpresa começou com o Livro dos
Espíritos. Inexplicavelmente, eu tinha a impressão de haver lido aquele livro
antes. Mas onde, quando? Antecipava na mente o conteúdo de inúmeras respostas”,
disse ele em uma entrevista à Folha Espírita. Seu primeiro livro Diálogo com as
Sombras, foi publicado em 1976. Depois vieram mais 30 obras. A maioria se
tornou best seller e seus direitos autorais foram cedidos à instituições como:
FEB, Lar Emmanuel, O Caminho da Redenção, entre outras. Ele mesmo possui uma
assistência social em uma favela no Rio de Janeiro, no qual utiliza os recursos
dos livros publicados pela editora Lachâtre. Hermínio é um respeitado
pesquisador, escritor, tradutor e homem de bem, não só no meio espírita como
fora dele.
Publicado
na revista Universo Espírita – nº 7 – Março de 2004 – pgs. 38 a 41 e
transcrito por Julia Adalgisa
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