|
III Encontro Nacional
da Liga de Historiadores
e Pesquisadores
Espíritas
Notas para a Imprensa (Por Jader Sampaio)
Cerca de 80 pessoas passaram a tarde de sábado e a manhã de domingo na Associação
Espírita Célia Xavier em Belo Horizonte - MG, estudando e discutindo a preservação
da memória e a pesquisa espírita. Eles vieram de nove cidades diferentes dos estados
de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O público foi composto
de lideranças espíritas, historiadores e outros profissionais, com formação
superior ou de pós-graduação, assim como trabalhadores espíritas.
O III Encontro Nacional da LIHPE foi composto de dois simpósios, apresentados
oito trabalhos e discutidos quatro projetos institucionais relacionados à
cultura e memória, além do lançamento de livros e da apresentação da peça
teatral “As Mesas Girantes”.
Segue uma sinopse dos principais trabalhos:
Seminário de História e Memória
- Miriam Hermeto (professora universitária, historiadora e mestre em educação)
tratou de teoria e metodologia de pesquisa histórica, desenvolvendo assuntos
como características do ofício de historiador, trabalho com as fontes
históricas, biografia x história de vida e preservação do patrimônio cultural
no movimento espírita.
- No debate dos projetos no dia seguinte, ela informou que há muitos recursos
financeiros disponíveis para projetos de cunho cultural no Brasil, seja
administrados pelo Estado nos seus três níveis, seja sob a forma de incentivo
fiscal para pessoas jurídicas e físicas, mas o movimento espírita vem tendo uma
ação tímida, em suas diversas esferas, na preparação e submissão de projetos
culturais.
- Uma análise da história do movimento espírita brasileiro nos mostra que
desenvolvemos áreas como a prática mediúnica, o estudo sistematizado e a
promoção social, mas faltam espaços de trabalho sistematizado nas instituições
espíritas para a preservação da memória e a realização/divulgação da pesquisa
científica de temas espíritas.
- A historiadora também afirmou que outros segmentos sociais de cunho religioso
e cultural, como os culto afro-brasileiros, têm demandado e obtido dos órgãos
oficiais de preservação da memória, como arquivos públicos, recursos para
projetos de recuperação e documentação.
- Jáder Sampaio (Professor da UFMG, Psicólogo, Doutor em Administração) chamou
a atenção para o fato de os livros espíritas agora estarem sendo repassados às
livrarias por distribuidoras, e que, mais que há trinta anos atrás, a lógica de
mercado tem chegado ao centro espírita. Ele sugere que os centros espíritas
tenham especial atenção sobre os títulos que comercializam, para que não se
tornem meras livrarias de mercado, vendendo apenas lançamentos e romances
procurados pelo público e se esquecendo que têm um papel importante na
divulgação do Espiritismo.
- Ele tratou de bibliotecas espíritas e destacou o cuidado que este órgão deve
ter com seu acervo. Seu papel não se resume a emprestar livros muito procurados
pelo público, mas ser um centro de referência, onde o estudioso possa fazer
pesquisas e se possa ter um acervo compreensivo das obras espíritas.
- Alexandre Rocha (editor das Publicações Lachâtre, bacharel em letras e
especialista em administração) complementou a questão das bibliotecas dizendo
ser prática comum o pedido de doação livros para editoras espíritas. Ele sugere
que as bibliotecas possuam uma política de aquisição de acervo, buscando
recursos para tal, o que viabilizaria a publicação de inúmeras obras
importantes para o Espiritismo que não saem a público pela falta de interesse.
Em frase de efeito, Alexandre informou ao público que a única biblioteca que
adquire os livros históricos da Lachâtre sistematicamente é a biblioteca de
Washington.
Seminário de Pesquisa
- Alexandre Fonseca (Doutor em Física) e Jáder Sampaio responderam a um bloco
de perguntas sobre o conhecimento científico, que mostraram que existem
diferentes metodologias de pesquisa para as ciências humanas e naturais. O
conhecimento científico não se fundamenta apenas em experimentos cruciais, mas
na aceitação das teorias e idéias pela comunidade de cientistas de uma
determinada área. Isso coloca à pesquisa de temas de interesse do Espiritismo a
obrigação de buscar interlocução com a comunidade científica.
- Os dois expositores afirmaram que muitos conceitos de suas áreas de atuação,
Física e Psicologia respectivamente, vêm sendo utilizada de forma equivocada e
sem fundamentação em textos publicados por autores espíritas. Essa situação
demanda uma interlocução maior com os especialistas das diversas áreas que
atuam no movimento espírita e um cuidado maior dos órgãos de divulgação e dos
autores com a redação e publicação dos textos.
- Foram apresentados os conteúdos de muitas teses e dissertações publicadas
recentemente e que são do interesse do movimento espírita, mas as áreas de
conhecimento predominantes ainda são as ciências humanas e sociais e os estudos
se referem, em sua maioria, ao Espiritismo como um movimento religioso.
- Foram propostas muitas idéias para o fomento da pesquisa de temas espíritas
no ambiente universitário, como a construção de redes de pesquisadores
espíritas das diversas áreas já atuantes nas universidades, o fomento da
pesquisa através de bolsas de pós-graduação a serem oferecidas por instituições
espíritas, aos moldes do que faz a Society for Psychical Research inglesa, o
intercâmbio com pesquisadores de parapsicologia que estejam desenvolvendo temas
de interesse do Espiritismo no Brasil e no exterior, a criação de bancos de
teses e dissertações nos órgãos de cultura e memória espírita, a criação de
espaços especializados na mídia espírita e o compromisso dos dirigentes das
casas espíritas em inserir temas de divulgação desses trabalhos em uma
linguagem compreensível ao grande público.
Apresentação de Trabalhos Inscritos
- Alexandre Rocha mostrou-nos em seu trabalho que Clóvis Ramos, cuja desencarnação
passou quase em branco pelo movimento espírita, nos deixou um acervo de quase
400 livros escritos, a grande maioria deles não publicados.
Ele está levantando esse acervo e já localizou cerca de 200 títulos (153
inéditos e 47 publicados). Alexandre também tratou da vida de L. Palhano Jr.,
escritor e pesquisador espírita.
- Com base na informação acima, ele propôs que os centros de documentação e as
bibliotecas espíritas criassem um espaço para o depósito de originais que ainda
não tiveram publicações, com fornecimento de um registro para assegurar os
direitos autorais, aos moldes do escritório de direitos autorais da Biblioteca
Nacional.
- Paulo Henrique (editor da revista Universo Espírita) apresentou um trabalho
no qual denuncia que a grande maioria de fontes e informações que temos
disponíveis sobre Mesmer está incorreta ou imprecisa e que se fundamentaram nas
obras de seus críticos. Ele realizou um trabalho de fôlego de obtenção e
tradução dos livros desse autor e em breve o movimento espírita poderá ter
acesso a eles. A imagem difundida do homem da casaca lilás (dourada em outras
versões) com uma varinha nas mãos, tocando aos pacientes para transmitir o
magnetismo animal é, portanto, uma criação de seus inimigos.
- Milton Piedade (coordenador da LIHPE) apresentou um trabalho no qual ele
discute o conteúdo das mensagens atribuídas a Allan Kardec, ditadas a Zilda
Gama, que foram publicadas no livro Diário dos Invisíveis, publicado em 1920.
No seu trabalho ele faz uma biografia da médium e descreve os diversos cuidados
e preocupações de Zilda na identificação do espírito. Este trabalho faz parte
de um projeto maior no qual o autor vem estudando as mensagens atribuídas a
Kardec obtidas por diversos médiuns conhecidos pelo movimento espírita. Esse
trabalho suscitou uma viva discussão sobre a
necessidade de se conhecer mais o processo de construção do texto mediúnico,
sobre a análise comparativa da linguagem do texto mediúnico de autores
conhecidos e sobre os processos psiconeurológicos da psicografia.
- Eduardo Carvalho Monteiro (escritor, coordenador da LIHPE, assessor
pró-memória da USE-SP) apresentou suas pesquisas e as próximas publicações que
estão em andamento.
- Jomar T Gontijo (engenheiro eletrônico e especialista em Ética) membro do
Grupo de Estudos de Ética apresentou um trabalho sobre ética espírita, no qual
ele distingue ética de moral, apresenta as diversas influências que a ética
recebeu no ocidente: Aristóteles, Jesus da Galiléia, Immanuel Kant, Jeremy
Bentham e Jurgën Habermas. Ele propõe que se reavalie o jargão que diz que “a
ética espírita é a ética cristã”, para que não se venha a confundir o
cristianismo histórico com o Espiritismo. Ele defende que a ética espírita é
cognitivista, empírico-racionalista, deôntica-teleológica, transdiscursiva,
naturalista-evolucionária e universal.
- Gil Restani de Andrade (administrador, diretor do Instituto de Cultura
Espírita de Minas Gerais) recuperou com detalhes o episódio em que aconteceram
raps no escritório do Sr. Allan Kardec, fazendo-o rever conceitos que estavam
sendo desenvolvidos.
- O Dr. Alexandre Fontes da Fonseca apresentou o trabalho controle do caos e
influência dos espíritos na natureza no qual mostra, com base na teoria do
caos, como a ação dos espíritos nos fenômenos naturais, especialmente em um
fenômeno de grande porte como uma tempestade, poderia ser explicada.
- Thelma Virgínia Rodrigues (engenheira elétrica e mestre em engenharia)
mostrou as consistências entre idéias de “O Livro dos Espíritos” e as
concepções contemporâneas dos estudos de “Ciência, Tecnologia e Sociedade -
CTS”.
Comunicações de Projetos e Realizações
Institucionais
- Alexandre Zaghetto (representante da Federação Espírita Brasileira)
apresentou os principais cuidados que estão em curso para a preservação e
digitalização da biblioteca de obras raras. Ele respondeu a muitas perguntas do
público.
- Paulo Sérgio Manhães Peixoto (representante do Conselho Espírita de
Unificação de Niterói) apresentou com detalhes as diversas atividades do
Primeiro Mês de Cultura Espírita de Niterói. Inauguração da praça Professor
Rivail em Piratininga, instituição e comemoração do Dia do Livro Espírita a
partir de lei na Câmara Municipal de Niterói, monumento, placas comemorativas,
lançamento de selos comemorativo, realização da exposição de “banners” das
fotografias de “Allan Kardec” feitas por Edson Audi, peças
teatrais, conferências, feira de livro espírita, lançamento do livro “Para
Entender Allan Kardec” e cine-debates foram algumas das principais realizadas
junto à população da antiga capital do estado do Rio de Janeiro.
- Felipe Estabile Moraes (historiador, especialista em História e Diretor do
Departamento de Assuntos de Unificação da União Espírita Mineira) apresentou as
ações realizadas por essa instituição na preservação da memória, o que inclui a
publicação de livros e a recuperação dos seus arquivos. Ele apontou a necessidade
do desenvolvimento de um projeto mais substancial, recordando a todos que essa
instituição se tornará centenária em 2008.
- Eduardo Carvalho Monteiro e Paulo Henrique apresentaram com detalhes o seu projeto
de um Centro Cultural e de Documentação do Espiritismo. Ele prevê a construção
de três tipos de bibliotecas: uma biblioteca especializada espírita, uma
biblioteca de obras raras e uma biblioteca de monografias. Prevê também um
centro de documentação histórica, um museu da imagem e do som, um centro de
mídia e um centro de cultura, pesquisa e projetos, no qual se fará, entre
outras coisas, exposições de obras e ambientes culturais. Já foi doado um
pequeno prédio na cidade de São Paulo no qual funcionará este Centro. Os
autores estão viajando pelos estados buscando a adesão de companheiros
espíritas para se criar uma rede articulada de Centros de Documentação. Sua ida
ao estado do Rio de Janeiro já deu frutos positivos.
As Mesas Girantes
A Companhia Espírita Laboro ( http://www.arteespirita.com.br
<"
target=_blankhttp://www.arteespirita.com.br/>; ) apresentou sua
bem humorada peça “As
mesas girantes”. A trama focaliza cinco situações: a família Fox, o quacker
norte-americano Issac Post, a Sra. Hayden, o episódio de Kardec com Fortier e o
drama fictício da Madame Gerard. Os esquetes combinaram precisão de dados e
informações históricas com uma linguagem corporal de “arte clown”, canções com
arranjos vocais e instrumentos musicais. O resultado é um espetáculo leve,
emocionante, que instrui e diverte e que arrancou minutos de aplausos dos
participantes, que se puseram de pé. A peça encantou a todos, que saíram
refeitos após um dia de trabalhos intelectuais pesados. A companhia ofereceu o
seu espetáculo ao evento gratuitamente, mostrando que é possível realizar
divulgação do pensamento espírita através da arte e da criatividade.
Lançamento de Livros
Foram lançados os livros “História da Radiodifusão Espírita”, de Eduardo
Carvalho Monteiro, Bezerra de Menezes, o 13o. Apóstolo, de Jorge Damas Martins
(que não pode estar presente), “Dr. March em dois Planos” de Alexandre Machado
Rocha e o “Aspecto Científico do Sobrenatural” de Alfred Russel Wallace,
traduzido por Jáder Sampaio.
Homenagem a Napoleão Araújo
A mesa de abertura homenageou a Napoleão Araújo, membro da LIHPE que desencarnou
em novembro de 2003. Napoleão foi presidente, vice-presidente e conselheiro da
Federação Espírita do Estado do Paraná, participava ativamente das trocas de informações
na LIHPE e divulgava alguns dos trabalhos através da homepage da FEP.
Síntese das Conclusões do III ENLIHPE
1. O movimento espírita necessita se perceber como tendo uma identidade
cultural própria e não apenas como um movimento religioso.
2. O movimento espírita deveria elaborar e encaminhar projetos culturais,
viabilizando-os com fundos públicos e incentivos fiscais.
3. Os órgãos federativos devem formar grupos de trabalho em suas respectivas
esferas (municipal, estadual e federal) para identificar e orientar centros
espíritas sobre a legislação e a utilização incentivos próprios à cultura.
4. O movimento espírita deve construir Centros de Cultura e Documentação
regionais, a serem articulados entre si, com a finalidade de colecionar,
preservar e divulgar fontes históricas (documentos, livros, imagens, jornais,
etc.) regionais. Estes centros viabilizarão a pesquisa histórica do movimento
espírita brasileiro no futuro.
5. Devemos empreender esforços no sentido de recuperar e preservar a obra de
autores e personalidades consideradas importantes para o movimento espírita,
sob a pena das gerações futuras terem dificuldades ou não terem como consultar
esses livros e documentos e passarem a entender o passado a partir de narrativas
ou lendas.
6. As sociedades espíritas devem ter uma política clara para que suas livrarias
sejam efetivamente espaços de divulgação da doutrina espírita e suas
bibliotecas venham a construir um acervo de obras para a realização de estudos
por parte dos interessados.
7. Dever-se-ia empreender um esforço para o fomento, intercâmbio e divulgação
da pesquisa científica de temas do interesse do movimento espírita e da
articulação dos pesquisadores espíritas ou simpatizantes já atuantes nas
universidades em linhas de pesquisa ou redes de intercâmbio.
Instituições que apoiaram a realização
do evento
Associação Espírita Célia Xavier - AECX
Conselho Espírita de Unificação do Município de Niterói - CEUNIT
Editora Madras Espírita
Federação Espírita Brasileira - FEB
Grupo de Estudos Avançados Espíritas - GEAE
Grupo Educação, Ética e Cidadania - GEEC
Jornal Correio Fraterno do ABC
Liga de Historiadores e Pesquisadores Espíritas – LIHPE
Livraria “Ysnard Machado Ennes”
Livraria e Editora da União Espírita Mineira
Publicações Lachâtre
Revista “Universo Espírita”
Site Panorama Espírita
Site Terra Espiritual
União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo – USE-SP
União Espírita Mineira - UEM
|
|