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João do Rio
False
Sphinx! False Sphinx! by reedy Styx
Old Charon, learning on his oar
Waits for my coin. Go thou before...
Ao chegar à praça Onze, tomamos por uma das
ruas transversais, escura e lôbrega. Ventava.
- É aqui - murmurou cansado o nosso amigo, parando à
porta de um sobrado de aparência duvidosa.
Havia oito dias já andávamos nós em peregrinação pelo
baixo espiritismo. Ele, inteligente e esclarecido, dissera:
- Há pelo menos cem mil espíritas no Rio. É preciso,
porém, não confundir o espiritismo verdadeiro com a exploração, com a
falsidade, com a crendice ignorante. O espiritismo data de 1873 entre nós, da
criação da Sociedade de Confúcio. Talvez de antes; data de umas curiosas
sessões da casa do Dr. Melo Morais Pai, a bondade personificada, um homem que
andava de calções e sapatos com fivelas de prata. Mas, desde esse tempo, a
religião sofre da incompreensão de quase todos, substitui a feitiçaria e a
magia.
Foi então que começamos ambos a percorrer os centros,
os focos dessa tristeza.
O Rio
está minado de casas espíritas, de pequenas salas misteriosas onde se exploram
a morte e o desconhecido. Esta pacata cidade, que há 50 anos festejava
apenas a corte celeste e tinha como supremo mistério a mandinga, o preto
escravo, é hoje como Bizâncio, a cidade das cem religiões, lembra a Roma de Heliogábalo,
onde todas as seitas e todas as crenças existiam. O espiritismo difundiu-se na
populaça, enraizou-se, substituindo o bruxedo e a feitiçaria. Além dos raros
grupos onde se procede com relativa honestidade, os desbriados e os velhacos
são os seus agentes. Os médiuns exploram a credulidade, as sessões
mascaram coisas torpes e de cada um desses viveiros de fetichismo a loucura
brota e a histeria surge. Os ingênuos e os sinceros, que se julgam com
qualidades de mediunidade, acabam presas de patifes com armazéns de cura para a
exploração dos crédulos; e a velhacaria e a sem-vergonhice encobrem as chagas
vivas com a capa santa do espiritualismo. Quando se começa a estudar esse mundo
de desequilibrados, é como se vagarosamente se descesse um abismo torturante
sem fundo.
A polícia sabe mais ou menos as casas dessa gente
suspeita, mas não as observa, não as ataca, porque a maioria das autoridades
têm medo e fé. Ainda há tempos, um delegado moço freqüentava a casa de um
espírita da praia Formosa para se curar da sífilis. Se os delegados são assim
apavorados do futuro, reduzindo a mentalidade à crença numa panacéia
misteriosa, o pessoal subalterno delira.
- Veja você - disse-nos o amigo espírita -, toda a
nossa religião resume-se nas palavras de Cristo à Samaritana: "Deus é
espírito e em espírito quer ser adorado". Essa gente não compreende nada
disso, maravilha-se apenas com a parte fenomenal, com a canalhice e a magia. É
horrível. Os proprietários dos estabelecimentos de cura anímica a preço
reduzido exploram; o povaréu vai todo, aliando as crendices do novo às bagagens
antigas. São católicos ou perdidos a servirem-se dos espíritos como de um
baralho de cartomante.
Com efeito, todas as casas em que entramos, estavam
sempre cheias. Na maioria freqüentam-nas pessoas de baixa classe, mas se
pudéssemos citar as senhoras, as damas do high-lífe que se arriscam até
lá, a lista abrangeria talvez metade das criaturas radiosas que freqüentam as
récitas do Lírico. Alguns desses lugares equívocos não são só engodos da
credulidade, servem de máscaras a outras conveniências. A sessão fica na sala
da frente, mas o resto da casa, com camas largas, é alugado por hora a alguns
pares de irmãos. O médium, nesses momentos, deixa o estado sonambúlico
para servir o freguês, e um centro espírita revestido de mistério, com o
aparato das portas fechadas, dos passes e das velas acesas, transforma a
crença, cuja oblata é a virtude máxima, numa nódoa de descaro sem nome.
Nós
visitamos uns cinqüenta desses milhares de centros. A cidade está coalhada
deles. Há em algumas ruas dois e três. Estivemos no Andaraí Grande, na rua
Formosa, na estação do Rocha, na rua da Imperatriz, no morro do Pinto, na praia
Formosa, no Engenho de Dentro, na rua Frei Caneca, na rua Francisco Eugênio,
assistindo às sessões e ouvindo a vizinhança, que é sempre o termômetro da
moralidade de qualquer casa.
Um pouco de ceticismo ou de simples crença basta para
compreender a pulhice dessas pantomimas lúgubres.
Assim, há uma tropa de mulheres, a Galdina da rua da
Alfândega, a negra Rosalina da rua da América, a Aquilina da rua do Cunha, a
Amélia do Aragão, a Zizinha Viúva da rua Senhor de Matozinhos, a Augusta da rua
Presidente Barroso, a Tomásia da rua Torres Homem, n.0 14, que
estabelecem o comércio com consultas de 500 réis para cima e praticam coisas
horrendas, abortos, violações a preço fixo e têm trabalhos em que são
acompanhadas de secretárias; há espíritas ambulantes, como o negro Samuel, que
já foi cozinheiro, mora na rua Senador Pompeu, n.0 157, e vai de
casa em casa fazer passes; há mulatos pernósticos, o Zizinho da rua de S.
Januário, o Claudino da rua de Santana, o Joãozinho da rua Sorocaba, com
consultas noturnas; há portugueses como um tal Sr. Carneiro, da Praia Formosa,
e o Simões, da rua Visconde de Itaúna, que exigem 20$000 por consulta e mandam
os doentes comprar uma vela de cera e tomar um banho de cevada. Há de tudo, até
sinetas, rapazes de passinho rebolado, que quando não prestam mais para o
comércio público estabelecem-se nas ruas do meretrício com adivinhações
espíritas!
E nesse complexo notam-se os centros familiares, uma
porção de centros, alguns dos quais dão bailes mensais e, quando não são casas
de fabricação de loucuras levando à histeria senhoras indefesas, servem para a
mais desfaçada imoralidade e a mais ousada exploração.
No morro do Pinto a feitiçaria impera. Numa sala
baixa, iluminada a querosene, assentam-se os fiéis, mulheres desgrenhadas,
mulatinhas bamboleantes, negras de lenço na cabeça com o olhar alcoólico,
homens de calças abombachadas, valentes com medo das almas do outro mundo, que
ao sair dali ou ali mesmo não trepidariam em enfiar a faca nas entranhas do
próximo. As luzes deixam sombras nos cantos sujos. No momento em que entramos,
o médium, em chinelas, é presa de um tremor convulso. Diante do estrado,
uma portuguesa, com o olhar de gazela assustada na face velutínea, espera. A
pobre casou, o marido deu para beber e, desgraça da vida! bate-lhe de manhã, à
noite, deixa-a derreada.
É a mãe dessa mulher que
está dentro do médium. Todos
tremem, de olhos arregalados.
De repente, o médium estarrece
e por trás dos seus dentes, ouve-se uma voz de palhaço:
- Como estás, minha filha, vais bem?
- A mãe! A mãe! - murmura a portuguesita infeliz,
aterrada, em meio o palpitante silêncio.
- Que deve fazer sua filha? - pergunta o evocador.
- Ter confiança em Deus. Eu devia estar no inferno. A
misordia perdoou a mãe dela. Toda a desgraça vem de um bruxedo que
puseram na soleira da porta.
- Quem foi? - faz a portuguesa, numa voz de medo.
- Uma mulata escura que gosta do seu homem. Ele vai
ficar bom. Dê-lhe o remédio que eu receitar e crave um punhal no travesseiro
três noites a fio.
Um homem magro, parecido com
o general Quintino, faz uns passes; o médium volta a si num sorriso
imbecil.
- Está satisfeita? - pergunta o espertalhão dos
passes.
- A mãe! a pobre da mãe tão boa! A portuguesa rebenta
num choro convulso; uma negra epilética, velha, esquálida, começa a gritar numa
crise tremenda, enquanto o homem magro brada:
- Está com o espírito mau! Está mesmo!
Essas cenas sinistras são
compensadas por outras mais alegres. Num dos nossos bairros, o médium dá
sessões de manhã, evoca os espíritos para saber qual é o bicho que ganha e,
como é vidente, vê os espíritos com formas de animais.
- É o burro, é o burro! - grita em estado
sonambúlico, e a rodinha toda joga no burro.
No Andaraí Grande o curandeiro é divertido e
bailarino. Em vésperas de S. João dá um bródio de estalo com ceia copiosa e
vinhaça de primeira. Este tem a especialidade das mulheres baratas. A rua de S.
Jorge, a da Conceição, a do Senhor dos Passos, a do Visconde de Itaúna lá extravasam
a alma sentimental das meretrizes, dos soldados e dos rufiões. O nosso homem
cura tudo: dartros, feridas más, constipações, amores mal retribuídos, ódios. É
fantástico! As mulheres têm-lhe uma fé doida. O espiritismo para elas é o
milagre, a intervenção dos espíritos junto de um poder superior. Antes de ir à
consulta, ajoelham no oratório e vão com todos os seus bentinhos, as figas de
Guiné, o espanta mau-olhado das negras minas. Mas o cavalheiro do Andaraí é
sagrado. Toda essa fé emana, dizem, de uma sua predição feliz. Uma mulher que
voltava da Misericórdia recebeu por seu intermédio comunicação de que seria honesta;
e três meses depois um homem sério levou-a. A suburra do Rio venera-o,
freqüenta-lhe as festas e sustenta-o.
- São infames. O lema do espírita é: sem caridade não
há salvação. Seja a caridade deles. Quando não são isso, fazem das sessões,
como o Torterolli, sessões de orgia pública... Não posso mais!
Afinal, naquela noite
tínhamos resolvido acabar a travessia pelos bas-fonds da crença, com a
alma entristecida pela visão de salas idênticas, onde o espiritismo substituía
a bisca, os espíritos servem de feiticeiros e dão remédios para pescar amantes;
das salas que, como na rua de S. Diogo, mascaram as casas de quartos por hora.
A casa da rua transversal à praça Onze seria a última a visitar.
- Entre - disse o meu amigo.
Enfiamos por um corredor
escuro, subimos. No patamar um bico de gás silvava, batido pelo vento da rua.
- Papai, dois homens - bradou uma voz de criança.
Logo apareceu, em mangas de
camisa, um mulato de bigodes compridos, que se desmanchou em riso e
amabilidades para o meu companheiro.
- A que devo as honras? - disse sibilando os ss.
- As honras - como diz - deve-as ali ao irmão. É um
simpático que quer crer e anda, na dúvida, à procura da verdade. Que diz você
da verdade?
- Verdade? Ora esta! Verdade é o espírito!
- Bravo!
Fomos entrando para a sala
de jantar, com móveis de vinhático e garrafas por todos os aparadores.
- Nem de prepósito - fez o cabra. - O médium
está ali proseando com a gente.
O médium é um tipo de
hébèté, de quase cretino. Lourinho, de um louro de estopa, com a face
cor de oca e as gengivas sem dentes, é carteiro de 2.ª classe dos Correios. Tem
a farda suja e a gravata de lado. Durante todo o tempo em que o mulato nos
conta as suas curas, ele sopra monossílabos e remexe a cabeça, dolorosamente,
como se lhe estivessem enterrando alfinetes na nuca.
Um mal-estar nos invade,
como o anúncio de uma grande desgraça.
- Há tipos que usam ervas
para fingir que é espírito - diz o curandeiro. - Eu não; cá comigo é a
verdade. Um desses oraras põe
noz-vômica na água para os doentes lançarem e diz que é o espírito limpando lá
dentro. Pecado! Apre! Eu agora tenho um doentinho. Veio-lhe uma febre de
queimar. A mãe não tem quase dinheiro, mas não o gasta na farmácia. Eu o curo
logo...
De repente parou. Pela
escada subia um tropel, e uma mulher magra, lívida, aos soluços, entrou na
sala.
- Então que há?
- O pequeno está mal, muito
mal, revirando os olhos. Salve-mo! Salve-mo!
- É o tal que eu lhes dizia.
Não se assuste, D. Aninha. Eu já lhe disse que o pequeno ficava bom; os
espíritos querem. E para nós: venham ver.
Levou-nos ao terraço, ao
fundo, mergulhou um litro vazio numa tina de água, encheu-o, colocou-o em cima
da mesa.
- Durma, Zezé, durma!
E esfregou as mãos na cara
do carteiro, subitamente em pranto. O homem revirava os olhos, sacudia a
cabeça.
- É o espírito; veio, quer
que seu filho fique bom... E de repente
o diabólico começou a estender as mãos do carteiro choroso ao gargalo do litro.
- Não está vendo o espírito
entrar? Olhe... No litro cheio bolhas de oxigênio subiam vagarosamente e a
pobre mulher, agarrando a mesa, com os olhos já enxutos, seguia ansiada o
milagre que lhe ia salvar o filho.
De repente, porém, uma voz
estalou embaixo, na ventania:
- Mamãe! Mamãe! Depressa!
Joãozinho está morrendo, Joãozinho morre!
Essas palavras produziram um
tal choque que nós saímos desvairados, de roldão, com o mulato e a mulher,
sentindo um travor de morte nos lábios, angustiados, lembrando-nos dessa
criança que a inconsciência deixara morrer. E na ventania cortada de chuva,
entre as variadas recordações dessa vida de oito dias horrendos pelos antros
escuros onde viceja o espiritismo falso, a visão dessa criança perseguia-nos
cruciantemente, como o remorso de um grande e infinito mal.
Texto transcrito do livro Religiões
do Rio, página 69 a 72, disponível na internet em http://www.biblio.com.br/templates/paulobarreto/asreligioesdorio.htm
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